CF-2022 - Discernir

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Educar e evangelizar na tradição salesiana

Pe. João da Silva Mendonça Filho, SDB
À luz de Jesus, Mestre que ensina pelas obras e palavras, e das metas a serem alcançadas pela educação evangelizadora, é que desejo partilhar com os educadores os elementos salesianos que podem nos orientar e resgatar nosso lugar neste vasto setor da educação, evangelização de qualidade e inclusão.

No Pacto Global Educativo, o Papa Francisco ressalta alguns valores importantes para este momento do mundo em profunda e acelerada mudança epocal. O primeiro valor é colocar a pessoa no centro das decisões; o segundo, investir nas melhores energias com criatividade e responsabilidade e o terceiro, colaborar na formação de pessoas disponíveis para o serviço à comunidade (Francisco 12/11/2019). Trata-se de um empenho para investir numa educação inclusiva e sem preconceitos, possibilitando a abertura de mente, coração e vontade, envolvendo todos os recursos humanos e das variadas formas de expressões da sociedade: artística, musical, científica, esportiva, política, econômica, social, religiosa; enfim, todos e todas reunidos numa “aldeia global” que resgate a integralidade da educação e, no nosso caso salesiano, a evangelização, porque a “Igreja existe para Evangelizar” (São Paulo VI).

Neste ano, a Campanha da Fraternidade debruça-se sobre o tema da Fraternidade e Educação, dentro ainda do contexto pandêmico, no qual os processos formais e informais da educação foram testados e o resultado, até agora, não é tão positivo. Percebemos que ainda estamos longe de uma inovação da educação inclusiva, sobretudo quando se estende às periferias existenciais e geográficas, onde o Estado não chega de forma eficaz e, quando chega, revela sua incompetência de ser gestor do bem comum educativo.

À luz de Jesus, Mestre que ensina pelas obras e palavras, e das metas a serem alcançadas pela educação evangelizadora, é que desejo partilhar com os educadores os elementos salesianos que podem nos orientar e resgatar nosso lugar neste vasto setor da educação, evangelização de qualidade e inclusão.

Colocar a pessoa no centro das decisões: “Bom Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?” (Lc 18,18)

Um homem se aproxima de Jesus, não sabemos seu nome, apenas somos informados por Lucas que aquela pessoa traz consigo uma angústia de não saber os rumos para sua vida. Apesar de cumprir os Mandamentos e toda a Lei, ele ainda não conseguiu sentir satisfação naquilo que faz. Há um vazio, um buraco imenso entre o fazer e o sentido da vida. Jesus escuta a pergunta e procura fazer um discernimento, construindo assim um diálogo. Percebe que aquela pessoa é nobre, tem boa intenção, porém, falta-lhe algo que dê sentido real à sua existência e faz a proposta: “Deixa tudo o que tens, dá-o aos pobres e terá um tesouro no céu; depois, vem e segue-me” (Lc 18,22). A proposta do Mestre incomodou, inquietou, tirou o chão. É assim a educação. A arte de colocar a pessoa numa inquietante busca e mudança, nunca no conformismo. É preciso tirar do torpor da rotina. A evangelização, por sua vez, causará a conversão de mentalidade e a busca de sentido para ser sinal de vida aos outros.

Dom Bosco foi um educador do pátio. Ele observava os jovens nos jogos, nos momentos de oração, no diálogo pessoal, nas confissões, no estudo, no trabalho. Sabia escutar as vozes dos jovens, seus desejos e suas incertezas. Domingos Sávio, quando viu uma placa na porta do quarto de Dom Bosco com a inscrição Dá-me almas e fica com o resto, entendeu que aquele bom mestre estava ali para ajudá-lo a ser integralmente salvo: na alma e na vida, através de uma educação integral. Ele aceitou a inquietante proposta e percorreu o caminho da santidade. Aconteceu assim também com outros meninos do Oratório: eles perceberam que, no meio da massa de jovens, cada um deles era especial, era o centro da atenção e das decisões de Dom Bosco.

Investir nas melhores energias com criatividade e responsabilidade: “Senhor, dá-me desta água, para eu já não ter sede nem vir aqui tirá-la!” (Jo 4,15)

O diálogo de Jesus com a mulher Samaritana foi causa de conflito entre o Mestre Jesus e os discípulos: “Nisso seus discípulos chegaram e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher” (Jo 4,27). Falar com uma mulher era causa de escândalo, ainda mais entre um judeu e uma samaritana. Mas Jesus aposta nas energias daquela jovem mulher que, “por volta do meio-dia” (Jo 4,6b), caminhou até o poço para buscar água. Ambos estavam sedentos: ela de água para seus afazeres domésticos e Jesus da energia que aquela mulher transmitia com sua determinação e, mais ainda, quando ele diz que tem uma água que a saciaria e ela, imediatamente, pede da água.

A educação evangelizadora precisa ter a capacidade de investir nas energias que os educandos trazem de suas experiências, do seu aprendizado, de suas vivências. É preciso mudar o conceito de que, no processo educativo evangelizador, há um que sabe todas as doutrinas e informações e um outro que nada sabe. A mudança de paradigma é: ambos são sujeitos do ato de educar e evangelizar. Assim como o Mestre Jesus, que escuta a Samaritana na sua capacidade de responder e indagar, o educador precisa saber ouvir seus educandos para colher deles a sede da alma que trazem nos meios-dias de suas vidas.

É hora do encontro que fica marcado na história da pessoa e provoca iniciativa e responsabilidade de aceitar a proposta e ir comunicar aos outros o que viu e ouviu: “Ele me disse tudo quanto tenho feito” (Jo 4,39c), disse a Samaritana aos membros da sua comunidade. Na aldeia global, a educação precisa sair do casulo da informação e ser criativamente comunicada como nova forma de vida e sustentabilidade.

Na tradição salesiana é claro como água o valor das inciativas juvenis. Dom Bosco potencializou entre os meninos o associacionismo, pequenos grupos de devoção e conduta: o pequeno clero, a Companhia da Imaculada, a Companhia de São Vicente, o Coral, a Banda musical, A Companhia de São Luís etc. Todas formas associativas que ajudavam os meninos a trabalhar em equipe, a se ajudarem mutuamente, a fazer um caminho de fé, a ter conduta ética e moral e a amadurecer com a convicção de que, na sociedade, deveriam ser “bons cristãos e honestos cidadãos”.

Assim, eles descobriam, na prática educativa evangelizadora, a verdadeira água da vida, Jesus Cristo, e tornavam-se testemunhas daquela vivência fraterna e paterna de Valdocco a tal ponto que, após a proposta de Dom Bosco, em 1859, de que alguns deles fizessem um exercício de caridade para os jovens do Oratório, para num futuro serem religiosos, alguns entraram em crise, a exemplo, o jovem João Cagliero, que ficou dias enfurecido, mas, depois de pensar e de ter provado de toda aquela vivência oratoriana, fez a seguinte profissão de fé: “Frade ou não frade, eu fico com Dom Bosco”. E permaneceu. Foi um dos grandes músicos salesianos, padre, bispo e primeiro cardeal missionário na Patagônia. Esse é o saber apostar nas energias humanas e na responsabilidade da pessoa em ser agente de transformação a partir da educação evangelizadora de significado.

Colaborar na formação de pessoas disponíveis para o serviço à comunidade: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado!” (Mt 8,8)

Na esteira da CF sobre Fraternidade e Educação, o Pacto Global Educativo chega a um critério fundamental com o antídoto contra o egoísmo e a indiferença: o serviço aos outros. Trata-se de saber reconhecer que o dom recebido não pode ficar alheio aos problemas da sociedade, que o dom recebido não pode ser enterrado (Mt 25, 14-30), mas ser multiplicado; que é preciso, como as virgens prudentes do Evangelho (Mt 25, 1-13), manter as lamparinas abastecidas de azeite. Então, a educação evangelizadora deve passar de um ato individualista e competitivo para a formação de pessoas que colaborem, como ação social, pelo bem da sociedade, mesmo que sejam remuneradas de forma digna, mas que entendam que todo trabalho em prol do bem comum é política social de responsabilidade.

O centurião romano, homem rígido e formado para matar, encontrou-se diante de um dilema: o cuidado de um servo paralítico que sofria muito. Para ele seria mais fácil eliminar ou abandonar aquele servo inutilizado, porém, ele recorre ao Mestre Jesus. Quando escuta que Jesus mesmo entrará em sua casa fica apavorado: “Eu não sou digno”. E não era mesmo. Um centurião romano não tinha apenas fama de escravizar seus criados, mas até de matar e mandar matar. No entanto, Jesus escuta aquela confissão pública e faz o discernimento ao dizer: “Em verdade eu vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém em Israel” (Jo 8,10). O fato poderia passar despercebido se o sujeito não fosse um centurião romano, um pagão cruel e explorador. No entanto, Jesus reconhece naquela confissão uma pessoa disposta a servir aos demais. É este potencial que a educação evangelizadora precisa resgatar na sociedade líquida pandêmica narcisista. Purificando-se de todo preconceito, de todo juízo moral, de toda sorte de intolerância, o educador precisa saber reconhecer, através do diálogo, que cada pessoa tem muito a contribuir para o bem da coletividade.

Nesse sentido, Dom Bosco sabia reconhecer nos jovens o potencial de cada um e investia pesado para arrancar dos jovens toda energia positiva para servir à comunidade. O jovem Miguel Magone, por exemplo, que Dom Bosco encontrou numa estação de trem ilustra muito bem esse critério. Magone comandava um grupo de meninos e brincava no meio dos trilhos. Era noite, havia muita névoa e pouca visibilidade. Dom Bosco se aproximou do grupo e logo percebeu que havia um líder, era Magone. Um menino respondão, até atrevido, que não aceitou que um padre tenteasse absorver sua liderança. No entanto, começou um diálogo. Dom Bosco valorizou as energias de Magone. Entre os dois havia ainda uma obscuridade. O trem aproxima-se da estação e, no coração de Magone, a pergunta era: “Quem é o senhor?”. Dom Bosco sobe ao trem e reponde: “Eu te encontro em Valdocco”.

Semanas depois, Magone chega ao Oratório, encontra aquele padre e descobre que era Dom Bosco. Começa ali uma amizade. Magone era a alma do recreio, um líder nos estudos, no trabalho, no pátio, na igreja, em todo lugar ecoava a voz daquele líder juvenil. Magone morreu cedo, mas ficaram no Oratório sua alma, sua presença e seu testemunho vivo impregnado do seu desejo de servir aos outros. A educação evangelizadora salesiana potencializa exatamente esse espírito juvenil de liderança e serviço. Nada descarta, nada desaprova, apenas reconhece e encaminha para o bem comum.

Conclusão
Pensar a educação evangelizadora salesiana a partir do Pacto Educativo Global, nesta Campanha da Fraternidade, é uma tarefa que para nós, da Rede Salesiana Brasil de Escolas, exigirá revisitar o Evangelho e nossa práxis pedagógica preventiva, resgatando a pessoa do educando, tirando-o da exclusão social - inclusive religiosa - na qual muitos vivem, para superar os discursos de intolerâncias e preconceitos que julgam as aparências e condenam as atitudes. Assim, saberemos aproveitar das energias de cada pessoa, da criatividade das idades juvenis, do desejo de servir e de sonhar com um mundo melhor e mais humano, como bem diz o Papa Francisco aos jovens: “Sonhem, não percam a capacidade de sonhar!”.

Para nós, da RSB, a educação é arte do coração. “Nada por força, mas por amor”; porém, um amor capaz de criar, recriar e ser antídoto contra a indiferença, o egoísmo, o narcisismo, o preconceito e a exclusão.

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