Entrevista

“Minha escola me ensinou a ser humana, a olhar para o próximo”

Vitória Ramos, ex-aluna da Rede Salesiana de Escolas (RSE), é analista de políticas na ONG internacional ActionAid. Nesta entrevista, conheça a inspiradora história desta jovem.
Eduardo Sabino – RSE Informa

Estimular o protagonismo juvenil e o trabalho social, formar cidadãos que contribuam para uma sociedade mais justa e fraterna são alguns dos objetivos da educação salesiana. Vitória de Paula Ramos, 23 anos, ex-aluna da Rede Salesiana de Escolas, é um exemplo da juventude que nossas escolas buscam despertar. Formada em Relações Internacionais, ela atua como analista de políticas da ONG ActionAid, presente em mais de 40 países. Vitória estudou no Instituto Nossa Senhora da Glória (INSG Castelo), em Macaé, RJ, dos 3 aos 17 anos. Em entrevista ao RSE Informa, a ex-aluna faz questão de apontar as atividades educativo-pastorais realizadas na escola como experiências decisivas para seu projeto de vida.

Sempre digo que minha escola me ensinou a ser humana, a olhar para o próximo.

Fale um pouco sobre a ActionAid e sua trajetória na organização.
A ActionAid é uma organização internacional cuja missão é o combate à pobreza e às injustiças socioambientais. Está presente em mais de 40 países ao redor do mundo e no Brasil atua há 15 anos. Em abril completo 4 anos trabalhando na ActionAid Brasil, onde comecei como estagiária no setor de Direito à Alimentação e tive contato com uma realidade um pouco nova pra mim: a pobreza rural e o desenvolvimento no campo. Agora trabalho com análise de políticas a nível nacional e internacional, fazendo pesquisas para monitorar algumas políticas públicas voltadas para a população mais pobre e incidindo para que tais políticas se aprimorem a partir das demandas de quem as usufrui e sempre em parceria com outras organizações da sociedade civil brasileira.

Você esteve na África para realizar trabalhos sociais. Como foram as experiências?
Minha primeira viagem ao continente africano foi em 2010, quando vivi com uma amiga na Cidade do Cabo, África do Sul, por um mês, trabalhando em um lar para crianças órfãs ou cujos pais não tinham condições de criá-las. Passávamos as tardes com essas crianças, que eram quase 40 meninas e meninos de 3 a 17 anos, e ajudávamos nos seus deveres de casa, a servir o lanche e desenvolver atividades mais lúdicas. Aquelas crianças eram muito carentes e criaram um vínculo muito forte conosco, pois as enchíamos de carinho. Os funcionários do lar diziam que os outros voluntários que recebiam eram em sua maioria europeus e não eram tão calorosos quanto minha amiga e eu (risos). Foi uma dor partir, e até hoje sinto falta das crianças, pois vivi uma entrega muito grande a elas.

Dois anos depois fiz outro trabalho voluntário, dessa vez na Etiópia, um país completamente diferente de tudo que já tinha visto. Fui com meu companheiro para dar aulas de inglês para crianças na escolinha de uma comunidade bem pobre na capital do país, Addis Ababa. Foi uma experiência muito profunda porque o lugar em que eu morava e dava aulas era muito pobre, estava até sem abastecimento de água, e a cultura etíope é muito diferente e interessante. Ambos os trabalhos foram iniciativa própria, não vinculados à ActionAid.

Qual a importância da educação salesiana do INSG Castelo na sua formação?
O Castelo foi minha segunda casa. Minha mãe era professora de música lá, estava sempre por dentro da educação minha e da minha irmã. Eu conhecia muito bem os funcionários e as irmãs, além das instalações (como a palma da minha mão). Acho que o Castelo nos estimulou a ir além das salas de aula, então sempre tive atividades extras lá e era muito envolvida e ativa nos eventos da escola.

Sempre digo que minha escola me ensinou a ser humana, a olhar para o próximo. Foi no Castelo que comecei a fazer trabalhos voluntários, quando tinha uns 10 ou 11 anos – em uma das aulas de Ensino Religioso com a Tia Tereza, resolvemos criar um grupo de jovens e nos reuníamos toda sexta-feira. Quinzenalmente, fazíamos uma visita ao orfanato Menino Jesus ou ao Recanto dos Idosos. Eu simplesmente amava aquelas visitas, sentia que eu era eu mesma e aquele era o meu lugar. Desde então, nunca tive dúvidas em relação ao que considero minha missão na vida: a de trabalhar para quem mais precisa, para mudar sua situação, e devo isso ao Castelo.

De que mais você tem saudade quando se lembra dos tempos de aluna salesiana?
Nossa, tenho saudades de muitas coisas! Eu tive a sorte de estudar em um lugar lindo e com as mesmas amigas incríveis por toda essa parte da minha vida, então aquele era o nosso lugar, onde eu me sentia pertencendo a algo. Acho que o sentimento mais próximo para descrever o que foi o Castelo pra mim é “lar”, tanto que ainda me sinto à vontade quando faço uma visita na escola, mesmo ela já tendo mudado tanto, porque muito mais do que a estrutura física (incrível) do Castelo, ele sempre foi feito de pessoas, por pessoas, para pessoas. O elemento humano é muito importante. Acho que talvez esse seja o grande diferencial de uma escola salesiana.

Em que momento você percebeu que gostaria de dedicar-se ao trabalho em uma ONG internacional?
Bom, como eu disse, desde os 10 anos eu sentia forte em mim uma missão de trabalhar para superar a pobreza (naquela época não entendia com essas palavras, risos). Com 14 anos, ao assistir um filme sobre exploração de pessoas na África, decidi que queria fazer Relações Internacionais. Durante a faculdade descobri que existia o chamado Terceiro Setor e que eu poderia trabalhar em uma organização não governamental sendo remunerada, então decidi que era isso que eu queria. Acabei focando meus estudos em ajuda humanitária, direitos humanos e estudos africanos. Na metade da faculdade, consegui o estágio na ActionAid e, quando me formei, pude ser efetivada. Lá estou até hoje. Me sinto muito grata todos os dias por ter a oportunidade de trabalhar com o que eu quero e o que eu amo, sei o quanto isso pode ser difícil.

A entrevista completa

Leia a íntegra da conversa no site do RSE Informa: rse.org.br/rse-informa

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