O Dia Mundial das Missões é celebrado em todo mundo no terceiro domingo do mês de outubro, desde 1926. Para a Família Salesiana, o mês das missões é uma época para que cada um revigore a vocação missionária, tão inerente ao seu modo de viver o seguimento de Jesus. “Nosso carisma salesiano é essencialmente missionário”, explica o padre salesiano Glauco Félix Teixeira Landim, animador das dimensões Missionária, Vocacional e Catequética da Pastoral Juvenil da Inspetoria Salesiana de Nossa Senhora Auxiliadora, em São Paulo. Ao animar estas frentes, padre Glauco assessora, acompanha e promove a formação dos diversos projetos e grupos de voluntariado missionário na inspetoria
De acordo com padre Glauco, ser missionário é uma característica intrínseca do ser cristão. “A vida cristã consiste em seguir a Jesus Cristo, viver os seus ensinamentos e anunciar para os outros a experiência que você realizou”, explica. Padre Glauco ressalta: “Dom Bosco, quando padre jovem, em Turim se deparou com a realidade do jovem sem família, abandonado, encarcerado, que vivia na periferia diante de uma realidade social muito difícil. Sentiu que Deus o chamava para ser missionário ali, em meio daqueles jovens, ajudando-os a encontrar um horizonte de sentido e de esperança. Com o seu oratório, abriu as portas de sua casa para todos os jovens mais pobres e abandonados. Dizia ele: ‘O meu oratório é a paróquia dos meninos que não têm paróquia’”.
Hoje muitos membros da Família Salesiana exercem a sua vocação missionária por meio de iniciativas que beneficiam principalmente aqueles que estão em uma realidade social mais frágil. Os jovens são muitas vezes os protagonistas dessas ações, que ocorrem no âmbito da Dimensão Missionária da Pastoral Juvenil Salesiana.
Vivendo o ardor missionárioTodas as inspetorias salesianas do mundo desenvolvem atividades no âmbito missionário. São ações que buscam promover a educação de jovens e crianças, oferecer assistência às comunidades menos favorecidas e principalmente avivar a evangelização, tanto dos jovens que são enviados como missionários, como da comunidade que recebe estes jovens.
Um dos principais projetos de animação missionária é a ‘Semana Missionária’, que a Inspetoria Salesiana de Nossa Senhora Auxiliadora promove há mais de 20 anos, sempre no mês de julho. A iniciativa envolve jovens de colégios da Rede Salesiana de Escolas, das obras sociais e universidades, bem como paroquianos e os vocacionados. Durante a realização da Semana, os jovens são levados para regiões diferentes de sua moradia, com o intuito de prestar assistência àqueles que mais precisam.
Outra atividade é a Ação Missionária, uma iniciativa que envolve jovens na faixa de 18 anos que atuam nos GAMs (Grupos de Animação Missionária) e ocorre sempre no mês de janeiro, levando os jovens a comunidades localizadas, em geral, nas periferias de grandes cidades e lugares que apresentam grandes dificuldades sociais. Além dessas duas ações, a inspetoria também promove a Expedição Missionária, realizada uma vez por ano, apenas para os jovens do GAM que desejam aprofundar a sua experiência missionária; e o Voluntariado Internacional, que conta com a participação de jovens que dedicam seis meses ou mais de suas vidas como voluntários missionários em outra inspetoria do Brasil, ou mesmo fora dele.
Conscientizar o jovem para a urgência da missão, para que eles entendam que são importantes para a mudança da realidade social e para a construção de um mundo melhor é, segundo o padre Glauco, um dos grandes desafios da Animação Missionária. “Os jovens possuem grande sensibilidade e eles querem ajudar. O nosso desafio é ajudá-los a colocar em prática o potencial que eles já tem”, afirma o salesiano. Já no contexto da missão, padre Landim acredita que o grande desafio é encontrar a melhor forma de fazer o Evangelho chegar ao coração dos que estão afastados ou daqueles que não conhecem a Palavra.
Irmã Valéria Timóteo, FMA, é brasileira e vive em Porto Príncipe, no Haiti, desde 2010, onde colabora com a educação de alunos de cinco grandes escolas salesianas da região. Em depoimento ao Boletim Salesiano, ela relata o que sentiu e aprendeu no país, devastado por um grande terremoto.
“Não escolhi Haiti, pois poderia ter sido outro país, outro lugar, mas nesse momento devastador, foi o Haiti - terra de montanhas! Lembro-me que estava em férias em comunidade. Eram dias bons, tranquilos. Foram instantes de medo e coragem, experimentei vários sentimentos opostos. Pensei: o que fazer? Grande momento! Não esquecerei jamais. Era uma situação que eu não estava esperando. Uma resposta estava no ar: sim ou não. Tudo passou rápido, pois com as novas tecnologias, as imagens chegavam como uma cascata pela televisão. Analisei-me e vi que tinha alguns requisitos para essa nova missão, tão inesperada e dura. Mas humanamente, me sentia pequena diante da realidade a vir. Deus completaria, no momento oportuno, os outros requisitos, se fosse preciso, e foi o que aconteceu. Estou feliz por ter dito Sim. Outros virão. E é lindo saber que eu não estava sozinha e que participava de uma ação de família humana, família Igreja e Família Salesiana. Agradeço a Inspetoria das Irmãs Salesianas de São Paulo que me encorajou, apoiou, colaborou nesses anos e também agradeço a minha família que não colocou entraves na minha partida e me acompanhou nessa ação com as suas benções. Isso é divino! E isso aconteceu há quase 6 anos.
São várias as dificuldades que encontramos hoje no Haiti. Não sei dizer qual é a principal dificuldade, pois um problema está ligado ao outro, mas penso que a instabilidade política gera uma instabilidade geral. Com isso, os investidores internacionais e também os expatriados não têm coragem de investir no país, causando um desleixo total. A insegurança de aplicar capital e de tudo se perder causa medo. Há falta de emprego, de moradias dignas, de hospitais. Falta comida para todos, faltam escolas para todos dignamente, falta saneamento básico, limpezas nas ruas, coleta de lixo, água potável, rodovias e ruas asfaltadas nas cidades. Faltam espaços de lazer para os jovens, que estão amontoados nas cidades sem nada a fazer. Falta ônibus para o transporte coletivo - ainda não existe ônibus para a população, o que existe são caminhonetes transformadas em meios de locomoção coletiva pública. O atual presidente comprou ônibus para o transporte coletivo de estudantes grátis, isso foi uma coisa inédita. Centenas de estudantes têm ônibus para ir e voltar para casa gratuitamente.
O Haiti não tem forca armada, apenas uma força de policiais com membros insuficientes e sem bons equipamentos para cobrir todo o país com eficiência, e aí a violência aumenta. A falta de confiança e de respeito uns nos outros reduz a moralidade, aumentando o individualismo e o medo do outro. A família está desintegrada, pois se o pai de família não tem um trabalho digno, ele não tem condições de cuidar da sua família; a consequência é que ele cai na criminalidade, nas drogas, no alcoolismo, nas vendas de armas ilegais, enfim... é uma roda que vira sem parar.
Nesses últimos 6 meses, houve uma violência sem comparação contra a Igreja, foi um terror. Comunidades religiosas - em especial femininas - foram atacadas, com violência, por parte de bandidos que operavam à noite bem armados e levavam tudo de valor que encontravam nas casas e escolas. O medo era concreto. A falta de energia elétrica cooperou para que pudessem ter mais facilidade para atos de bandidagem - e eram jovens na maioria dos casos. Vimos fotos de alguns nos jornais quando foram pegos alguns deles. Batiam nas irmãs, houve até mortes e estupro. Foram tempos difíceis que passamos nesses últimos meses. A Igreja de Jesus perseguida hoje. Talvez alguns desses jovens tenham sido alunos de nossas escolas católicas, presentes em maioria no país. Que situação!
Várias coisas melhoraram consideravelmente no país. Mas ainda não é suficiente para que possamos ver as crianças nas praças limpas e com segurança, eletricidade nas ruas à noite e sem montões de lixo.
Esse povo tem me ensinado a ter coragem de lutar. A ter valentia e coragem de viver mesmo em situações desumanas. Mesmo morrendo a cada minuto por tantas dores, eles seguem vivendo com garra, sonhando algo que é impossível num tempo próximo. Lembrando que o Haiti foi o primeiro povo negro a se libertar da escravidão, com muito sangue, mas que segue ainda hoje escravizado de outras maneiras. Os haitianos arriscam ainda hoje passos de danças, canções de amor, que insistem e persistem até quando enfim a escravidão terminar; e dai poderão enfim viver como povo digno de sua cor de ébano roubada da África. Então será, enfim, a liberdade, onde todos poderão viver em paz.”