No último dia 21 de julho, faleceu o padre salesiano Casimiro Beksta, aos 92 anos: um dos maiores estudiosos e defensores da Amazônia indígena. Nascido na Lituânia, em 1923, Casimiro Beksta sofreu com a guerra e a perseguição pela ditadura stalinista até conseguir fugir para a Alemanha, quando tinha 18 anos. Órfão e muito religioso, entrou para o seminário e, ainda estudante, nutria o sonho de ser missionário na Índia. Graças ao convite de um bispo, acabou vindo para o Brasil, em 1950. Em dezembro de 1951, o salesiano chegou ao Amazonas pela primeira vez. Após concluir os estudos de Teologia, tornou-se padre e retornou para a floresta amazônica, ainda na década de 50.
No Alto Rio Negro, além da cidade de São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Estado do Amazonas, desbravou a floresta na descoberta e no convívio com comunidades pouco contatadas. Morou em aldeias de praticamente toda a área do Alto Rio Negro e afluentes, como rios Yauaretê e Tiquié.
Padre Casimiro conviveu com diversas tribos indígenas que habitavam aquela região e deu início a uma respeitada carreira de documentarista, escritor, linguista, intelectual e militante dos movimentos indígenas. Sua militância o levou a coordenar a Pastoral Indigenista da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o transformou em uma das figuras principais na criação do Conselho Indigenista Missionária (Cimi), ocorrida na década de 1970.
Ele lecionou no Centro de Estudos do Comportamento Humano (Cenesch) de Manaus, onde ministrou aulas no curso de Ciências Sociais. Cientista da antropologia cultural, padre Casimiro era referência da etnografia amazônica, com diversos livros e traduções publicadas na área. Também era mitólogo, consultor, estudioso da cosmologia indígena e fluente em idiomas nativos. Tinha pleno domínio do idioma tukano, a ponto de contar piadas na língua do alto rio Negro. Fluente em outros idiomas, como o latim e o grego, aprendeu a falar as línguas nativas e dialogava com os indígenas com naturalidade.
Padre Casimiro foi uma biblioteca viva para intelectuais como o escritor Márcio Souza, a artista plástica Bernadete Andrade, a escritora Regina Melo, a professora de Filosofia Socorro Jatobá e a antropóloga Berta Ribeiro, entre muitos outros que o tiveram como base para suas obras.
O acervo pessoal de padre Casimiro também é rico. Além de anotações, há gravações inestimáveis, em equipamento que ele sempre carregava consigo, como seu companheiro de viagem, e que estão atualmente na Inspetoria Salesiana Missionaria da Amazônia, onde residia nos últimos anos de sua vida.
Padre Antonio de Assis Ribeiro (Pe. Bira), SDB, é vice-inspetor da Inspetoria Salesiana Missionaria da Amazônia (Inspetoria São Domingos Sávio) e referente nacional da Pastoral Juvenil Salesiana