Mensagem do Reitor-Mor

Não tenhais medo

Uma reflexão sobre Mt 10, 26-33.
Pe. Fabio Attard – Reitor-Mor dos Salesianos

Quando Jesus dirige aos seus discípulos o convite para “não ter medo”, é preciso estar atentos e não reduzir este convite a um slogan superficial. É um chamado, uma palavra pronunciada por um mestre àqueles que escolheram caminhar e estar com ele. Com todas as suas faltas, os discípulos de Jesus são aqueles que deixaram tudo para o seguir. Jesus está falando a pessoas que gradualmente vão descobrindo o que significa a amizade com Ele, e que vale a pena tomá-lo a sério. É precisamente a partir desta amizade que a ordem de não ter medo adquire todo o seu peso.

Não tenhais medo”: não é uma escolha, mas uma descoberta
Somos tentados a ler estas palavras como um apelo à coragem que devemos evocar do fundo de nós mesmos, por meio da força de vontade ou do pensamento positivo. Não é assim.

O convite de Jesus não é construído sobre cálculos humanos. Não é otimismo vazio. Jesus envia os seus discípulos “como ovelhas para o meio dos lobos” (Mt 10,16), e eles enfrentam perigos e oposições reais. Que significa então verdadeiramente: “Não tenhais medo”? “Não ter medo” só é possível porque aconteceu “alguma coisa” àqueles que seguem Jesus. Construiu-se uma relação. Uma amizade, no sentido mais profundo da palavra, que lançou raízes no fundo do coração do discípulo. A amizade com Jesus é diferente de qualquer outra amizade. N’Ele e com Ele descobrimos que somos conhecidos e, por isso, sustentados. Tal relação não é uma metáfora sentimental. É a gramática da intimidade.

Portanto, a ausência de medo é uma descoberta de que lentamente nos damos conta no tempo, através da prática de permanecer próximos d’Ele: na oração, na escuta da sua Palavra, no encontro sacramental, no serviço aos pobres e aos jovens. Damo-nos conta de que, pouco a pouco, aquilo que começa como um esforço se torna confiança. Aquilo que começa como disciplina se torna amor. E, naquele amor, o medo não desaparece, mas perde o seu impacto. Já não somos escravos, mas pessoas livres porque abraçados pelo amor de Jesus.

Seguir Jesus: um caminho que enriquece a nossa humanidade
Jesus envia os seus discípulos, mas não os abandona. Todo o movimento desta passagem bíblica é o de uma missão dentro de um acompanhamento. Diz-lhes o que deverão enfrentar. Diz-lhes quem é o seu Pai. Promete o seu testemunho em seu favor diante do Pai. Isto é, não se limita a dar instruções, mas dá-se a si mesmo.

E isto é o coração da vida cristã: não a observância de um código, mas o caminho de se confiar a uma Pessoa. “Seguir Jesus” é uma frase tão familiar que corremos o risco de esvaziá-la da sua profundidade. Porque seguir significa mover-se, deixar a segurança daquilo que era, e caminhar em direção àquilo que se vai fazendo novo: nunca sós, mas com Ele, n’Ele, para Ele.

A beleza deste caminho é que não nos diminui, não rebaixa a pessoa humana. Pelo contrário: é o caminho da plena humanização. Quando nos confiamos a Jesus, quando ousamos entregar-nos a Ele, somos como a criança que se abandona nos braços do pai. Reencontramo-nos. Descobrimos uma capacidade de amor, de resistência, de alegria, de solidariedade que não sabíamos ter.

E este caminho da fé ensina-nos, lentamente, mas com certeza, que somos sustentados. Que a nossa humanidade é preciosa aos seus olhos. Que valemos mais, infinitamente mais, do que por vezes ousamos acreditar.

É dessa segurança de ser conhecidos e amados que recebemos a força para enfrentar os desafios da missão… sem medo.

Declarar-se por Jesus: uma identidade pessoal madura
“A quem me reconhecer diante dos homens, também Eu o reconhecerei diante de meu Pai que está nos céus”.

Este é o movimento culminante do trecho bíblico. Escutemo-lo com atenção, porque facilmente é mal-entendido. Declarar-se por Jesus não é um ato político. Não é a adoção de uma ideologia, uma bandeira que se leva, uma causa a defender na praça pública. A linguagem do “declarar-se” poderia sugerir um momento de compromisso público, uma espécie de posicionamento estratégico. Não é isto que Jesus nos pede.

Quando os discípulos falam de Jesus à luz do dia, quando proclamam dos telhados aquilo que escutaram nas trevas, não estão a declamar. Estão simplesmente partilhando aquilo em que se tornaram. Falam d’Ele porque Lhe pertencem. Dão testemunho porque a sua vida foi plasmada pela d’Ele.

Portanto, declarar-se por Jesus, significa aproximar-se da verdade mais profunda daquilo que se é. Não é um movimento de entusiasmo religioso ou de pertença social emotiva. É o reconhecimento de que o mundo se tornou amadurecido através da amizade com Jesus, é deixar-se formar pela oração e pela entrega. A minha identidade está enraizada no meu “habitar” em Cristo Jesus.

Conclusão
“Não tenhais medo”, não porque o mundo se tenha tornado seguro. Não porque a missão seja fácil. Mas, porque somos conhecidos, amados e sustentados por Cristo Jesus. Somos acompanhados por Aquele que contou todos os cabelos da nossa cabeça e nos chama pelo nome diante do Pai.

Acreditamos que nunca virá a faltar-nos a graça desta liberdade, que é fruto da nossa amizade com Jesus.

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