Estreia 2026

Maria, mestra do “deixar agir”

Aproximações e implicações da Estreia 2026.
Pe. Luis Timossi, SDB – CSFPA
Tradução: Pe. Tarcizio Odelli, SDB

Nas Bodas de Caná, encontramos Maria atenta e vigilante; diríamos, em nossa linguagem própria, como uma verdadeira “assistente salesiana”, capaz de interpretar a realidade do que acontece, porque se fez próxima, presença amorosa no cotidiano da vida, com capacidade para escutar.

É algo que chama a atenção: nessa cena, ela nada realiza. Não se afadiga nem se agita, como Marta, irmã de Lázaro; mas também não permanece inativa como a outra irmã, Maria de Betânia. É sensível ao que percebe como um problema para a festa de casamento e encaminha os envolvidos para colocá-los em contato com Jesus. Move-se com discrição, mas não se sobrepõe à realidade nem age de modo exagerado. O milagre da transformação da água (com a qual haviam sido enchidas as seis talhas destinadas à purificação) em vinho de excelente qualidade será, de fato e por inteiro, obra de Jesus.

Aprender a “deixar agir”
Observemos um pouco mais de perto essa atitude de Maria. Nesse episódio — e em todos os poucos em que aparece nos Evangelhos —, ela é mestra experiente em reconhecer que a obra é de Deus. Age com uma “passividade ativa”, unindo “contemplação e ação”, e com absoluta “confiança e abandono” na força do amor de Deus. Ela não age diretamente, mas “deixa Jesus agir”: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). “O Senhor fez em mim grandes coisas”(Lc 1,48). “Junto à cruz estava sua mãe”(Jn 19,25). Esse parece ser seu motivo, sua ideia-força. Poderíamos dizer: sua identidade. Ela é referência absoluta a Jesus.

O que pressupõe esse “deixar Deus agir”? Maria tem a convicção, a certeza plena, de que o único sujeito capaz de realizar maravilhas na vida humana é Deus. Essa é sua experiência e sua fé mais radical. Considera-se e define-se a si mesma como um “sim”, um “faça-se”, um “magnificat”; como alguém capaz de perceber a ação de Deus, deixá-lo agir livremente e, depois, transformar-se em louvor e bênção.

Ela é a revelação do mais belo milagre que Deus realizou na salvação do mundo: ela mesma. O Anjo a encontrou inteiramente disponível à vontade de seu Senhor. Fez-se vazio absoluto, silêncio total, receptividade ilimitada, transparência imaculada, permitindo a Deus dispor incondicionalmente de sua pessoa. Somente assim Deus pôde realizar a encarnação do Verbo, de seu Filho.

A confiança total
Nessas Bodas de Caná, Maria nos ensina o modo de agir para transformar o mundo, que, surpreendentemente, consiste em nada fazer por si mesmo, mas em deixar Deus agir. Consiste em ser um canal transparente do amor de Deus. Em um exercício radical de liberdade, ela opta pela confiança absoluta no Amor de Deus.

Enraizada no momento presente que lhe cabe viver, torna-se solidária com o sofrimento das pessoas, mas não se considera protagonista da transformação. Vive o presente na humildade da “serva”, que sabe quem é seu Senhor e quanta força possui “seu braço poderoso”.

Essa atitude mariana de “agir sem fazer”, de “atuar sem assumir o protagonismo do próprio ego”, constitui um aprendizado muito valioso para nós, que nos sentimos comprometidos com a missão salesiana de trabalhar pela juventude mais pobre e abandonada. Dom Bosco, educado por Maria, que foi sua “mestra”, sempre se considerou uma “ponte”, uma “mediação”, “um sinal e portador” do amor de Deus pelos jovens. É o próprio Deus quem guiou cada coisa em cada momento (Cf. Introdução às Memórias do Oratório). Agora te digo: foi tudo obra de Maria…(Mamãe Margarida a Dom Bosco).

A superação do “ativismo”
À luz desse testemunho de Maria em Caná da Galileia, queremos reconsiderar a tentação do “ativismo”, que nada mais é do que protagonismo pessoal: ação centrada em nossas capacidades, exaltação dos frutos do próprio esforço, projeção e até imposição de nossas ideias e projetos. É um ativismo que, segundo o pensamento dos Reitores-Mores, nos conduz à “superficialidade espiritual”, à “esterilidade bíblica” de nossa vida, porque não permite que Deus realize “suas maravilhas”.

Nesta Estreia, Maria se apresenta novamente como testemunha da fé, da liberdade e do serviço. Queremos acolher seu exemplo e deixar-nos guiar por sua profunda e bela pedagogia, para aprendermos a ser, como ela, “crentes, livres para servir”.

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