Ver é o ponto de partida. De fato, Maria percebeu o que estava acontecendo nas bodas de Caná. De modo preventivo, ela descobre o sofrimento que está prestes a atingir a vida daqueles jovens esposos: não têm vinho. A alegria deles está acabando…
Mas a essa primeira leitura sensível e atenta, Maria acrescenta uma tensão operativa: procura uma resposta que resolva o problema. Seu olhar não é ingênuo nem superficial, mas intencional. Ela lê a realidade a partir da fé em Jesus. Enquanto descobre o problema, sua alma “cheia do Espírito Santo” a conduz a apresentar a situação ao seu Filho. É a Ele que apresenta o problema e é n’Ele que confia plenamente: “Façam tudo o que Ele lhes disser”.
A vontade de Deus emerge dos próprios acontecimentos
O contratempo descoberto é imediatamente apresentado ao seu Filho, propondo aos “servidores” — título muito bem escolhido para definir o que somos — que façam tudo o que Ele disser.
Padre Fabio Attard, em sua reflexão, ajuda-nos a descobrir um aspecto significativo do processo que nos conduz a viver a vontade de Deus: “A vontade de Deus surge de den-tro da nossa colaboração nos acontecimentos que vivemos, n’Ele e por causa d’Ele”. Para isso é indispensável cultivar e aprofundar nosso vínculo com Jesus, com a sua própria pessoa. Ele é a fonte de toda inspiração e de toda missão.
Não ser autorreferenciais
Não é Maria quem resolve diretamente a situação. Ela não é autorreferencial. Seu tes-temunho ensina o caminho justo para responder à realidade. Ela não se coloca no cen-tro e não quer que nós assumamos um protagonismo inadequado e ansioso. Ela nos pede simplesmente: escutem e façam o que Jesus disser.
Esta é uma genialidade, um traço típico de sua maneira “mariana” de ser. Ela é “a von-tade de Deus encarnada”, a disponibilidade total à ação transformadora e libertadora de Deus. Sua resposta mais radical foi: “Faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1,38). Ela tem plena consciência de que o único sujeito protagonista de toda ação sal-vadora é Deus.
Não fazer nada… “escutar”, para deixar Deus agir
Nos Evangelhos, Maria nunca aparece fazendo algo por iniciativa própria. Ela deixa Deus agir. No seu cântico diante de Isabel, reconhece: “O Senhor fez em mim grandes coisas…” (Lc 1,49). Sua atitude consiste em ter plena consciência de quem é o verda-deiro sujeito da ação. Sua reação é quase reflexa: Deus age, e sua liberdade transparen-te e sua adesão total à vontade divina permitem que Deus opere livremente.
Quem é o verdadeiro sujeito da ação educativo-pastoral? Não somos nós! É Jesus quem nos comunica a luz e a força de sua Palavra para agir em seu nome, como servidores do Reino. Por isso precisamos aprender a fazer o que Ele nos diz.
Aqui não funciona o esquema “ação–reação”
Maria ensina a escutar e a fazer o que Jesus quer. Essa mudança de sujeito — do “eu” ou do “nós” para Jesus como referência principal — implica uma profunda transforma-ção de perspectiva para uma espiritualidade da ação.
Diante de uma necessidade detectada na realidade dos jovens, não corresponde imedia-tamente uma ação nossa, colocando-nos como protagonistas. É necessário passar por uma fase de escuta e docilidade de fé. Porque acreditamos que quem já resolveu o pro-blema da história humana, com sua morte e ressurreição, é Jesus. Ali está a síntese da Palavra que devemos escutar, da revelação de Jesus que, como servidores, temos que prestar atenção.
Assim, diante de uma situação como a de Caná — “não têm vinho” — a resposta ime-diata é: “Escutem e façam o que Ele lhes disser”.
A “lógica salesiana” da ação
Esta é a “lógica” salesiana da Pastoral. A originalidade “mariana” do nosso carisma não consiste tanto em fazer muitas coisas pelos jovens, mas em deixar Deus agir em nós e através de nós, tornando-nos apenas sinais e portadores do Seu amor.
Assumir tudo por conta própria, esquecendo o protagonismo de Deus, seria apropriar-nos da obra de Deus, ocupar um lugar que não nos pertence. Maria é totalmente trans-parente nisso, porque sua fé é radical e totalmente referida a Jesus.
Maria, nossa Mãe Auxiliadora, ensina-nos a escutar e a obedecer a Jesus!