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Pedagogia Salesiana: vínculo, escuta e sentido para as juventudes

O objetivo desta reflexão é destacar alguns aspectos significativos que contribuam para compreender o ideal educativo de Dom Bosco e sua força transformadora como proposta de educação integral.
Prof.ª Maria Elvira Jardim Menegassi / Foto: iStock - monkeybusinessimages

Contextualizar a educação para as juventudes do século XXI é um desafio que exige sensibilidade e atualização constante.

Em uma era marcada pela velocidade vertiginosa das informações, pela multiplicidade de relações no ambiente digital e pela presença constante da tecnologia no cotidiano, os jovens vivem conectados a um mundo em expansão contínua. Nesse cenário dinâmico, repensar as formas de ensinar e aprender torna-se essencial para dialogar com as necessidades, os interesses e os modos de ser dessa nova geração. A busca pelo sentido da vida, o acolhimento, a participação e o reconhecimento de sua individualidade são os aspectos que mais se destacam nas pesquisas sobre as preocupações das juventudes de hoje.

Nesse contexto juvenil, a pedagogia salesiana, fundamentada na experiência educativa de Dom Bosco, apresenta-se como uma proposta atual e eficaz, pois compreende o jovem como protagonista de sua história e valoriza a presença afetiva e efetiva do educador. Para além de uma proposta educativa, trata-se de um estilo de vida fundamentado na presença concreta, no diálogo e no amor que educa, pois o jovem quer mais do que conteúdos didáticos — ele procura sentido, escuta e vínculo.

Os jovens no centro
É fundamental discutir novas abordagens curriculares, valorizar de forma mais consciente o tempo e o espaço educacional e firmar um compromisso contínuo de diálogo com os educadores, indo além da simples renovação de práticas pedagógicas. No entanto, nenhuma dessas iniciativas pode se afastar de nossa herança carismática, uma identidade que coloca o jovem no centro do processo educativo.

Ao abordarmos a pedagogia salesiana, é fundamental retomar os princípios que a sustentam, bem como os elementos centrais do Sistema Preventivo, baseado na razão, na religião e na bondade, e reafirmar sua relevância nos contextos escolares contemporâneos. Essa proposta pedagógica ressalta a importância da formação ética, da valorização das individualidades e do fortalecimento do protagonismo juvenil.

O objetivo desta reflexão é destacar alguns aspectos significativos que contribuam para compreender o ideal educativo de Dom Bosco e sua força transformadora como proposta de educação integral.

iStock/Eduard Figueres

Educar e evangelizar
Comecemos nossa reflexão reconhecendo que educar e evangelizar são processos profundamente interligados — um binômio indissociável. Dom Bosco compreendia que não há evangelização autêntica e transformadora sem um caminho educativo igualmente sólido, afetivo e envolvente.

A evangelização acontece pelo testemunho, pelo acolhimento e pela valorização do ser humano em sua totalidade. O jovem é chamado a reconhecer seus valores pessoais e colocá-los a serviço da transformação de sua própria realidade e da sociedade. Devemos favorecer espaços em que possam aprender uns com os outros, valorizando suas diferenças, sejam elas culturais, étnicas, de gênero, de deficiência, de classe social e outras. Ensinar o respeito à dignidade das pessoas é oferecer uma base sólida ao processo de evangelização, pois é nesse caminho que os jovens descobrem suas formas concretas de inserção e participação no mundo que sonham construir para si e para os outros.

Essa concepção é reafirmada pelo padre Pascual Chávez, na Estreia 2013, com o tema Como Dom Bosco educador: “Precisamos caminhar, portanto, na direção de uma confirmação atualizada da opção social, política e educativa de Dom Bosco. Isso não significa promover um ativismo ideológico, ligado a determinadas opções político-partidárias, mas formar para a sensibilidade social e política que sempre leve a investir a própria vida como missão pelo bem da comunidade social, com referência constante aos inalienáveis valores humanos e cristãos.”

Uma experiência relacional
Na visão de Dom Bosco, a pedagogia é, por natureza, uma experiência relacional: jovens e educadores crescem e se transformam por meio do encontro. Essa interação mútua não apenas transforma os ambientes, mas também é influenciada por eles, criando um espaço fecundo para o cultivo de boas relações, um clima de familiaridade constante e de confiança recíproca. “Sem familiaridade não se demonstra afeto e, sem essa demonstração, não pode haver confiança. Quem quer ser amado deve demonstrar que ama”, afirmava Dom Bosco em 1884, na Carta de Roma.

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Se a pedagogia salesiana é relacional, a presença do educador constitui um modo de ser e estar com o educando, estabelecendo vínculos autênticos e orientando com afeto, escuta e testemunho. Essa presença se revela em diferentes espaços da rotina escolar (sala de aula, pátio, capela) e possibilita uma convivência educativa próxima, significativa e transformadora.

Mas, afinal, quem são os educadores? São todos aqueles que se envolvem ativamente nos processos da vida escolar e que, por isso, exercem papel de agentes educativos. O trabalho educativo só alcança seu verdadeiro sentido quando, em cada espaço e tempo que compõem o cotidiano escolar — da porta de entrada à sala do diretor, do “bom dia/boa tarde” às orações, da aula formal às experiências nos laboratórios e nas atividades esportivas — todos os educadores compartilham o mesmo propósito: acolher, acompanhar e inspirar os jovens em seu desenvolvimento integral, promovendo, assim, um autêntico espírito de família.

Protagonismo e autonomia dos jovens
A dimensão comunitária do processo educativo é um dos pilares da pedagogia salesiana. O “pátio que educa” representa o espaço simbólico onde as relações interpessoais são construídas com base na ética, no respeito e na empatia. Para a juventude contemporânea, que anseia por pertencimento, vínculos sólidos e ambientes verdadeiramente acolhedores, esses espaços de socialização e aprendizagem partilhada são essenciais ao crescimento humano e espiritual e à formação integral do jovem. Nesse contexto, todos os ambientes ganham relevância como parte integrante do currículo, por serem espaços onde os jovens criam vínculos, expressam suas identidades, negociam conflitos e constroem coletivamente formas de convivência.

Ao incentivar a participação ativa dos estudantes nas aulas, nos projetos e nas decisões escolares, a abordagem salesiana fortalece o protagonismo juvenil e favorece o desenvolvimento da autonomia e da corresponsabilidade. A juventude contemporânea anseia por ser ouvida e reconhecida como sujeito do processo educativo, atuando como agente de transformação. A pedagogia salesiana responde a essa expectativa com escuta, diálogo e compromisso concreto. Valorizar os espaços de escuta é essencial, mas não se trata apenas de ouvir, e sim de acolher, compreender e dar sentido à escuta como ponto de partida para uma educação realmente transformadora.

Como destaca o Quadro Referencial da Pastoral Juvenil Salesiana: “O ponto de partida imprescindível é o encontro com os jovens na condição em que se encontram, escutando atentamente os seus questionamentos e as suas aspirações, para valorizar o potencial de crescimento que cada um deles traz em si”.

A consolidação da pedagogia salesiana atualmente exige comprometimento com a ética, o cuidado e a escuta. Isso implica atender de forma personalizada os jovens com maiores dificuldades, intervir em situações de conflito com mediação e empatia, e colaborar com as famílias na construção de uma cultura escolar inclusiva e fraterna. Mesmo com os desafios contemporâneos, como a tecnologia, a cultura da superficialidade e a exclusão social; os princípios estabelecidos por Dom Bosco permanecem vivos, adaptáveis e dialogam com as propostas educacionais da contemporaneidade.

O mais recente relatório da UNESCO sobre o futuro da educação (“Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação”) propõe um novo contrato social para a educação, fundamentado nos direitos humanos, na cooperação e na solidariedade. A pedagogia, segundo o documento, deve promover “as capacidades intelectuais, sociais e morais dos estudantes, para que trabalhem juntos e transformem o mundo com empatia e compaixão”, incentivando também “a cidadania ativa e a participação democrática”.

Diante disso, é justamente nas grandes possibilidades que a pedagogia salesiana se revela viva e atual. Dom Bosco, com sua voz que ainda ressoa em nossos corações, nos lembra: “Eu não disse que seria fácil, mas que valeria a pena”. E é nessa certeza que seguimos acreditando na força transformadora do amor educativo junto aos jovens.

Maria Elvira Jardim Menegassi é coordenadora Inspetorial das Escolas – Inspetoria Salesiana São Pio X (BPA).

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