Projeto Pessoal de Vida

Repensar o ser humano no projeto pessoal de vida na era da IA

Neste segundo artigo, tratarei do significado do ser humano, ou melhor, do novo humanismo que brota de toda esta complexa realidade em movimento acelerado e digital.
Pe. João Mendonça, SDB / Foto: iStock - Caiaimage/Martin Barraud

No artigo anterior, descrevi o complexo cenário das relações que a tecnologia digital, sobretudo a Inteligência Artificial, nos leva a repensar a forma de agir e compreender o cenário ao nosso redor e como tudo isso implica em saber agregar as mudanças no PPV. Neste segundo artigo, tratarei do significado do ser humano, ou melhor, do novo humanismo que brota de toda esta complexa realidade em movimento acelerado e digital.

Jesus desceu à nossa condição e nos exaltou
É preciso começar a falar dele, Jesus, o humano-divino que se manifestou de forma plena na história. O Verbo se fez carne, humano, e foi visto, ouvido, contemplado, tocado (1Jo 1,1-3). A Palavra que estava em Deus armou a tenda da sua morada entre nós para acolher a todos e todas, num coração abrasado pelo amor. Comunicou a Palavra de forma que os seus discípulos “se sentiram atraídos pela sabedoria da Palavra de Jesus, pela bondade de seu trato e pelo poder de seus milagres. E pelo assombro inusitado que a pessoa de Jesus despertava, acolheram o dom da fé e vieram a ser discípulos de Jesus” (Aparecida, 2007, 21).

É preciso dar graças a Deus pelo dom da Palavra revelada na pessoa do Filho amado cuja graça se derramou sobre nós, pois, “iluminados pelo Cristo, o sofrimento, a injustiça e a cruz nos desafiam a viver como Igreja samaritana” (Aparecida, 26). Então, agregar Jesus ao Projeto Pessoal de Vida não nos impõe um peso, uma carga; mas sim um dom: a alegria num mundo atemorizado, em guerras, agressões, e cujas armas sempre mais sofisticadas pelas tecnologias de ponta colocam em xeque a vida humana.

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"A era digital e a Inteligência Artificial criam a ideia de rede."

É possível imaginar um humanismo digital?
Em 2019, em Viena, num evento internacional sobre o novo humanismo, surgiu um manifesto sobre o humanismo digital (Sbardelotto Moisés, “Por um novo humanismo” digital, in: O novo humanismo, Paulus, 2022, p. 258). Quais são as características deste humanismo que podemos agregar ao Projeto Pessoal de Vida?

Antes de tudo, é preciso superar o que se chamou de antropocentrismo, que considerou o ser humano como o centro do universo. Uma forma excessiva de considerar o humano. Ao invés disso, é urgente uma sociedade democrática que molde as tecnologias a partir das necessidades humanas, sabendo conjugar o humano e a técnica, valorizando a vida de todos os seres humanos de forma que a Inteligência Artificial contribua para a humanização do mundo. Trata-se de um humanismo relacional do ser humano consigo, com Deus e com o próximo, superando a ideia autocentrada do ser e compreendendo a pessoa humana a partir das relações digitais em rede.

No PPV, é necessário repensar o que significa ser pessoa e passar a se considerar o centro, mas que transcende a tudo porque é criatura e nunca será Deus. A grande tentação de Babel é querer chegar a tocar em Deus e isso gerou confusão, como gera até hoje, sobretudo quando o ser humano dá prioridade aos seus interesses e todo o resto se torna, para ele, relativo e descartável.

Humanismo digital integrador
A era digital e a Inteligência Artificial criam a ideia de rede. Trata-se de uma grande teia de eventos inter-relacionados, dinâmica, onde tudo está interligado como uma grande rede de relações e, nela, o ser humano participa de forma ativa e depende delas para se relacionar (Sbardelotto Moisés, p. 261).

Esta rede complexa tem níveis bem definidos: pessoal, cultural, social, tecnológico, simbólico. Neles, as inter-relações acontecem de forma integradora, importante para a pessoa entender o PPV como algo relacional, que parte do pessoal, mas não acaba nele, e necessariamente se concretiza em rede. Entra em jogo a alteridade. Há, portanto, um grande potencial relacional no humanismo digital que é preciso saber agregar e, também, acompanhar os jovens no discernimento das escolhas e da valorização da vida e de seus sonhos.

Contudo, não basta apenas o desenvolvimento tecnológico. Faz-se urgente que a pessoa, em primeiro lugar, e a sociedade, saibam investir no potencial da inteligência e do desenvolvimento humano, tendo como princípio fundamental e ético que a “pessoa e a comunidade humanas são a finalidade e a medida do uso dos meios de comunicação social” (Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, 2002).

Com isso se cria um ambiente sociodigital, de forma a fazer prevalecer a dignidade da pessoa humana e o uso moral do bem comum. Como proporcionar que a tecnologia digital possa, de fato, contribuir para a comunhão de pessoas em rede? É o que iremos refletir no próximo artigo.

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