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A leitura como ferramenta de mudança: juventude, pertencimento e sentido

Formar novos leitores nunca foi uma missão fácil. É bem provável que muitos compartilhem a memória não muito afetiva com o professor que obrigou a leitura de algo incompreensível e totalmente fora da realidade do aluno. E acredite: muitos anos depois, as indicações podem, ainda, ser as mesmas.
Francini Lessa Chiquetti / Fotos: iStock - Andrey Popov

Para enraizar a vontade e a disposição para a leitura de obras complexas, é imprescindível que o texto deixe de ser, imediatamente, o vilão dessa história. A escola, ao insistir em práticas descontextualizadas, termina por reforçar a imagem da leitura como obrigação, e não como descoberta. No universo do jovem leitor, causa inquietação o fato de que a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” aponte para uma perda contínua e intensa de leitores. E, ao mesmo tempo, há uma efervescência cultural nas redes sociais: influenciadores, canais, páginas e plataformas voltadas exclusivamente à leitura.

É preciso, portanto, mudar a pergunta: não se trata de saber se os jovens leem, mas o que eles leem e por que leem. Este artigo parte dessa provocação para pensar a leitura como ferramenta de mudança, não apenas no sentido educacional, mas como prática de pertencimento, empoderamento e transformação social.

Leitura, identidade e pertencimento
A leitura, especialmente na juventude, pode ser tanto espelho quanto janela: espelho porque reflete experiências e realidades com as quais o leitor se identifica; janela porque apresenta o novo e provoca deslocamentos. A leitura significativa é aquela que produz sentido e gera afeto. Paulo Freire já nos dizia que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, e esse princípio é chave para compreendermos o afastamento de tantos jovens da leitura escolarizada.

Quando se impõe um texto sem dialogar com o universo cultural do jovem, o que se constrói não é um leitor, mas um resistente. A leitura se torna punição, e não prazer. Antônio Candido, em O direito à literatura, defende que o acesso à literatura é um direito humano essencial à dignidade e à formação crítica do sujeito. Negar esse direito, ou oferecê-lo de forma descolada da realidade do leitor, é uma forma de exclusão simbólica. Nesse sentido, Pierre Bourdieu contribui com o conceito de violência simbólica, compreendida como a imposição de uma cultura dominante sobre outras, desvalorizando saberes e gostos populares e legitimando apenas determinados repertórios culturais como válidos. Ao exigir dos jovens um domínio literário sem respeitar suas trajetórias e práticas culturais, a escola contribui, muitas vezes sem perceber, para essa violência.

istock - Jacob Wackerhausen

"A leitura significativa é aquela que produz sentido e gera afeto."

É preciso reconhecer que a leitura escolar tem operado como um mecanismo de distinção, que afasta em vez de aproximar. Quando a escola apresenta apenas textos considerados “clássicos”, com linguagem e contextos distantes da realidade juvenil, ela comunica, mesmo que implicitamente, que o universo cultural do jovem não tem valor. Essa desvalorização dos saberes juvenis repercute diretamente na forma como os estudantes se percebem como leitores. Se suas leituras não são legitimadas, tampouco se sentem autorizados a ocupar o lugar de sujeitos-leitores. A escola, nesse processo, deixa de ser espaço de democratização do conhecimento e passa a ser reprodutora de desigualdades simbólicas.

Por outro lado, quando os jovens se veem representados nos textos, quando percebem que suas vivências e modos de ser estão presentes nas narrativas, ocorre um deslocamento potente: eles passam a se reconhecer como sujeitos da linguagem. A leitura, então, deixa de ser uma tarefa escolar e se torna experiência de vida. Histórias que tratam de questões identitárias — como gênero, raça, território, classe, sexualidade — funcionam como catalisadoras desse processo de identificação e pertencimento. A literatura deixa de ser um objeto distante e passa a ser espelho de subjetividades plurais, contribuindo para a formação de uma juventude mais crítica, sensível e socialmente engajada.

A leitura tem papel central na construção subjetiva dos jovens. Ao estabelecer conexões com suas vivências e imaginários, ela promove pertencimento e estimula o pensamento crítico. Contudo, isso só acontece quando há mediação cuidadosa e sensível. A escola precisa sair da lógica da obrigação e investir na construção de leitores afetivos e ativos.

Marisa Lajolo e Teresa Colomer apontam que o prazer literário deve preceder a leitura utilitária. Quando a leitura é oferecida apenas para fins avaliativos, ela se empobrece. A narrativa de Pedro Bandeira, por exemplo, é prova de que é possível falar de temas profundos com linguagem acessível e envolvente. Raphael Montes, atualmente um dos autores mais lidos entre jovens, credita ao contato com Bandeira sua iniciação na leitura — o que demonstra o poder da identificação.

O digital e o protagonismo juvenil
A leitura mudou de lugar. A juventude não abandonou o hábito de ler — apenas o transferiu para outros meios. As redes sociais se tornaram espaços de compartilhamento e ressignificação das práticas leitoras. O fenômeno do booktok, por exemplo, mostra jovens indicando livros, criando comunidades, discutindo enredos e personagens com intensidade e paixão.

Michel de Certeau entende a leitura como prática de resistência: o leitor transforma o texto, cria sentidos próprios. Chartier, por sua vez, lembra que os modos de leitura são históricos e culturais, exigindo da escola uma reavaliação constante de suas práticas. Ler em formato digital, ouvir audiobooks ou consumir fanfics são formas legítimas de engajamento com a narrativa e, portanto, devem ser valorizadas.

A leitura é, e sempre foi, ferramenta de transformação. Mas, para que cumpra esse papel na vida dos jovens, é preciso que ela faça sentido, que dialogue com suas vivências, medos e desejos. A escola precisa abandonar a lógica da imposição e se tornar espaço de descoberta, onde a literatura não é um fim em si mesma, mas um meio de formação crítica, emocional e social.

A juventude lê — e lê muito — quando encontra sentido. Cabe a nós, educadores e mediadores, não sermos obstáculos nesse encontro, mas pontes. Ler com os jovens, ler como os jovens, e, acima de tudo, confiar no potencial que a literatura tem de transformá-los e de ser transformada por eles.

Francini Lessa Chiquetti é formada em Comunicação Social - Jornalismo pela Unisul; em Letras e Literatura de Língua Portuguesa pela Unigran e é especialista em Literatura Brasileira e em Juventudes. Atualmente leciona Língua Portuguesa, Literatura e Redação na Rede Salesiana Brasil de Escolas.

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