Em uma sociedade marcada pela solidão emocional, pela fragilidade dos vínculos, pela influência das redes sociais e pela banalização da sexualidade, é urgente recuperar processos educativos que coloquem a pessoa no centro, como convocou o Papa Francisco com o Pacto Educativo Global, e que promovam relações saudáveis, livres e humanizadoras.
O documento “Uma Pastoral Juvenil que Educa para o Amor” recorda que a afetividade e a sexualidade constituem um dos núcleos estruturantes e essenciais da personalidade humana. Por isso, a educação afetiva não pode ser reduzida a proibições morais ou a simples informações biológicas. Trata-se de acompanhar as juventudes e o/a jovem em sua história pessoal, reconhecendo suas dúvidas, vulnerabilidades, medos, desejos e potencialidades. O mesmo documento apresenta dez critérios para educar as juventudes para o amor:
1) acompanhar a construção da identidade;
2) acompanhar sua consciência e suas decisões;
3) educar para o autodomínio;
4) educar os sentimentos;
5) educar para a vida em comunidade;
6) educar para o reconhecimento dos limites;
7) conscientizar sobre o poder do continente digital;
8) acompanhar a singularidade e não vê-la como motivo de exclusão;
9) ensinar uma ética básica das relações afetivas; e
10) cuidar da família e dos amigos.
“É preciso que os jovens se sintam amados”
No Sistema Preventivo de Dom Bosco a amorevolezza ocupa um lugar central: “Não basta amar os jovens; é preciso que eles se sintam amados”; é necessário saber expressar aos outros o amor que se sente. E para ajudar nesse processo de integração entre dar e receber amor é necessário que a educadora e o educador salesianos escutem verdadeiramente a fim de poder entrar no universo juvenil, que se trata de um universo diferente daquele dos adultos. Acessar esse universo é uma jornada para se empreender com os pés descalços, conscientes de que o “solo que pisamos é sagrado” (Êx. 3,5). Antes de aconselhar, corrigir ou orientar, é necessário se aproximar com humildade e empatia, pois se trata de um universo contraditório: as juventudes vivem hiperconectadas, mas frequentemente sozinhas; cercadas de estímulos, mas carentes de sentido; expostas à sexualidade, mas sem referências sólidas para compreender o amor como dom e responsabilidade.
Nesse contexto, o acompanhamento integral salesiano busca ajudar os jovens a construírem sua identidade de maneira equilibrada e compreendendo que o amor não pode ser reduzido ao consumo do outro ou à satisfação imediata; ele é relação, reciprocidade, cuidado e compromisso. A pedagogia salesiana compreende que a afetividade possui dimensões biológicas, psicológicas, sociais e espirituais, exigindo a coragem de não fugir da reflexão e do diálogo sobre temas reais que tocam as juventudes, por mais difíceis que possam parecer, tal como foi indicado pelos padres sinodais no nº 150 do Documento Final do Sínodo dos Bispos: “Há questões relacionadas ao corpo, à afetividade e à sexualidade que exigem uma reflexão antropológica, teológica e pastoral mais profunda [...]. Entre elas, destacam-se as relativas à diferença e à harmonia entre as identidades masculina e feminina e às inclinações sexuais”. Mais do que respostas prontas, os jovens necessitam de pessoas que caminhem ao seu lado, que os ajudem a interpretar suas experiências e a descobrir o valor de sua própria dignidade.
Ambientes educativos saudáveis
Educar para o amor também exige criar ambientes educativos saudáveis e acolhedores. Dom Bosco transformou Valdocco em uma “casa” onde os jovens se sentiam aceitos, valorizados e escutados. Ainda hoje, a comunidade educativa salesiana deve ser espaço de encontro, convivência e crescimento humano. Isso implica combater toda forma de violência, discriminação, bullying, abuso ou exclusão, promovendo uma ética baseada no respeito, no consentimento, na igualdade e no cuidado com o outro.
Outro desafio importante está relacionado ao mundo digital. As redes sociais e os ambientes virtuais influenciam profundamente a construção da identidade e das relações afetivas. Assim, os educadores salesianos devem educar para o uso crítico e consciente dessas tecnologias, ajudando os jovens a construírem relações autênticas, não superficiais, e a redescobrirem a beleza dos vínculos reais de amizade e diálogo, expressando os próprios sentimentos de maneira madura.
O diferencial do acompanhamento salesiano é que ele é iluminado pela luz do Evangelho: a sensibilidade de Jesus diante das pessoas, especialmente das mais frágeis, revela uma pedagogia marcada pela compaixão, pela escuta e pela acolhida que afetou Dom Bosco profundamente. Toda comunidade salesiana é chamada a continuar esse estilo de presença que protege os vínculos, respeita as pessoas e anuncia o amor como vocação humana fundamental.
Assim, um acompanhamento que educa para o amor é aquele que acredita nas juventudes, caminha com elas e ajuda a descobrir que amar é aprender a sair de si, reconhecer o valor do outro e construir relações baseadas na liberdade, na responsabilidade e na doação. Na tradição salesiana, educar é um ato profundamente afetivo e espiritual; é formar pessoas capazes de amar e de se deixarem amar, tornando-se protagonistas de uma sociedade mais humana, fraterna e solidária.