Na parábola do rico e do pobre Lázaro que encontramos no Evangelho deLucas, capítulo 16, 19-31, para a pergunta feita a Jesus sobre o motivo peloqual não segue os gestos rituais da tradição, ao fariseu é feito o convite parair além das ações exteriores, a verificar se a exterioridade corresponde deverdade àquilo que leva no coração.
Jesus aceita o convite sem condições
Como o fariseu, também nós podemos convidar Jesus para a nossa mesa. A sua resposta é surpreendente: Jesus aceita, sempre, sem pôr condições. Não pretende que a nossa casa esteja em ordem, não exige garantias sobre a nossa coerência. “Ele foi e pôs-se à mesa” – com esta simplicidade desarmante, Jesus entra na vida do fariseu, sabendo já o que vai encontrar, conhecendo as contradições, as sombras, as duplicidades.
Esta é a primeira mensagem libertadora: Jesus não espera que sejamos capazes de tudo; vem para nos ajudar a ser capazes. Não devemos esconder quem somos de fato para ser dignos da sua presença. Antes, é mesmo a nossa incompetência que nos torna necessitados do encontro com Ele.
Uma presença que ilumina
Mas atenção: se Jesus aceita sem condições, a sua presença nunca é neutra ou inócua. Jesus entra e leva luz. O fariseu esperava talvez o hóspede complacente, alguém a exibir, a apresentar aos conhecidos: “Olhem, até Jesus vem à minha casa”. Ao invés, vê-se posto a nu sem ser humilhado com isso nem embaraçado. A presença de Jesus ilumina as contradições, faz emergir aquilo que preferiríamos manter escondido.
Não é uma agressão, é antes como quando acendemos a luz num quarto: a luz não cria a poeira que há, mas torna-a visível. Assim faz Jesus: não inventa os nossos defeitos, mas bondosa e gradualmente nos ajuda a vê-los por aquilo que são. Em poucas palavras, a sua presença é um convite a fazer claridade na nossa vida: a ver com honestidade onde somos autênticos e onde vivemos de máscaras; onde há coerência e onde há contradição entre aquilo que parecemos e aquilo que somos.
Além das aparências: o chamado à coerência pessoal
“Vós fariseus limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade”. Jesus não condena as práticas exteriores em si – as abluções, as orações públicas, a observância – mas projeta luz sobre aquela sutil e terrível cisão entre exterior e interior, a duplicidade de quem cuida da imagem ao mesmo tempo que descuida do coração.
É uma tentação que atravessa todos os tempos. Quanta energia empreendemos para construir uma imagem aceitável! Nas redes sociais, na vida profissional, até nas relações mais íntimas, filtramos, selecionamos, mostramos só aquilo que nos valoriza. Ao contrário, Jesus chama a uma coerência a nível muito pessoal, antes ainda que pública. Não se trata daquilo que os outros veem, mas de quem somos de verdade quando ninguém nos vê. É ali, na intimidade do coração, que se joga a nossa autenticidade.
Uma visão sem zonas de sombra
“Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior?”. Há aqui uma profunda intuição humana e espiritual: o ser humano é uno. Não estamos divididos em compartimentos estanques – a dimensão pública e a privada, o corpo e o espírito, a exterioridade e a interioridade. Não podemos ter zonas de sombra, áreas da vida subtraídas à luz, pensando que não contaminamos o resto.
O convite de Jesus é uma visão sem zonas de sombra: uma vida em que não haja ângulos escondidos onde cultivamos vícios, egoísmos, duplicidade. Uma transparência interior onde tudo é posto à luz da consciência e da graça. Isto não significa perfeição imediata, mas honestidade radical: reconhecer as nossas fragilidades, chamá-las pelo nome, não justificá-las, nem escondê-las. É o primeiro passo para a cura.
A esmola como dom de si
“Antes, dai esmola do que possuís, e para vós tudo ficará limpo”. Aqui está o cume da mensagem de Jesus. A verdadeira purificação não vem de rituais exteriores, mas daquilo que há dentro. A coerência tem a capacidade de ser portadora de bondade. A palavra “esmola” em grego tem as suas raízes na palavra “misericórdia”, compaixão. Não é só questão de dar dinheiro, mas de nos darmos a nós mesmos: o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa presença, a nossa vulnerabilidade.
Quando vivemos esta unidade interior, quando não há cisão entre quem somos e quem parecemos, então desta unidade emana a verdadeira esmola, a autêntica misericórdia: um dom autêntico, não calculado, não instrumental. Não damos para parecer generosos, mas porque a generosidade tornou-se quem somos.
Os jovens têm sede de adultos autênticos e coerentes
Esta mensagem tem uma ressonância particular hoje, especialmente para as novas gerações.
Os jovens vivem imersos numa cultura onde tudo tem um preço, tudo é calculado em termos de rendimento e utilidade; as identidades estão fragmentadas entre mil perfis, máscaras, papéis sociais; as relações são mediadas, filtradas, muitas vezes anônimas ou superficiais.
Neste contexto, os jovens têm uma sede desesperada de adultos autênticos: pessoas que vivem aquilo que dizem, que não têm um rosto em público e outro em privado, que não mentem por conveniência.
É preciso nunca esquecer que os jovens não procuram adultos perfeitos. Procuram adultos verdadeiros: capazes de reconhecer as suas próprias fragilidades, de ser coerentes nas pequenas coisas cotidianas, de manter a palavra dada, de ter uma vida interior que se vê. O melhor serviço que podemos prestar às novas gerações não é dar-lhes conselhos morais ou regras de comportamento, mas testemunhar uma vida autêntica.
O convite permanente
O fariseu convidou Jesus uma vez. Mas o texto revela-nos que Jesus está sempre disponível a ser convidado, hoje tal como há dois mil anos.
A pergunta para cada um de nós é: estamos dispostos a acolhê-l’O sabendo que a sua presença nos colocará perante a verdade de nós mesmos? Estamos prontos a deixar que ilumine as zonas de sombra? E ainda: depois de haver acolhido esta luz, estamos dispostos a viver na autenticidade renunciando às máscaras, dando aos outros não aquilo que nos engrandece, mas aquilo que temos dentro de nós?
Num mundo sedento de verdade, ser pessoas autênticas não é um luxo espiritual: é o primeiro ato de caridade que podemos realizar. Especialmente para com quem, como os jovens, tem o direito de ver que é possível viver sem duplicidades, que a integridade não é uma utopia, que a coerência entre interior e exterior é o caminho da verdadeira liberdade.