Há um modo muito salesiano de ler o Evangelho: começar pela porta de casa. Jesus, a caminho de Jerusalém, aceita o convite para jantar — e, com a simplicidade de quem não barganha amor, “entra” sem condições. É disso que nos fala o Pe. Fabio Attard: Cristo não espera uma casa perfeita para visitá-la; Ele vem para iluminar o que está escondido, reconciliar interior e exterior e fazer da coerência um ato de caridade. Quando a luz se acende, não cria a poeira — apenas a revela. E a misericórdia começa justamente aí: na coragem de deixar que Deus veja, cure e unifique.
Esse movimento tem um nome concreto no nosso coração oratoriano: “a casa que acolhe”. Não como slogan, mas como estilo. Casa é lugar de verdade, não de máscara; lugar onde se pode existir sem medo, ser chamado pelo nome, ser escutado, recomeçar. Acolher, aqui, é mais do que “receber bem”: é assumir o outro com a sua história, oferecendo um espaço onde a vida recobre a dignidade. Por isso, a “casa que acolhe” pede coerência: não dá para arrumar a sala e abandonar o coração.
A Estreia 2026, “Fazei tudo o que Ele vos disser”, ecoa como um método para esta hora difícil. Em meio ao barulho de conflitos e ansiedades, o Pe. Luis Timossi nos recorda que a fé não é anestesia, mas lucidez; e que Maria é mestra do olhar: percebe que “o vinho acabou” e não se conforma. Ela enxerga porque ama; e, por amar, age. Não é isso que uma casa faz? Percebe faltas antes que virem tragédia, e mobiliza o necessário para que a alegria não morra.
É nesse horizonte que a Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia”, ganha uma força particular. O lema — “Ele veio morar entre nós” — não é apenas uma frase bonita: é critério de fé. Se Deus escolheu habitar a história, habitar a dor do povo, então a moradia digna deixa de ser tema “social” e passa a ser lugar teológico: é onde a encarnação quer continuar acontecendo. A CNBB nos ajuda a encarar a realidade sem evasivas: déficit, precariedade, rua, falta de saneamento — rostos concretos, famílias concretas, juventudes concretas.
E aqui a salesianidade mostra que sabe transformar Evangelho em chão. O mutirão do Portal Dom Bosco lembra que “casa que acolhe” também se escreve com organização comunitária, parceria e perseverança; o Projeto Casa Real prova que formação profissional pode se tornar serviço e dignificação; e o Abrigo Dom Bosco mostra o diferencial decisivo: não apenas teto, mas acompanhamento integral, afeto, reconstrução de autonomia — uma verdadeira “porta de saída”.
No fim, a pergunta que fica é simples e exigente: nossa presença é casa ou vitrine? A coerência de que Jesus fala não é moralismo; é hospitalidade interior que transborda em hospitalidade social. Se queremos ser, com Dom Bosco, “casa que acolhe”, comecemos por abrir a porta ao Senhor — e permitir que Ele organize a casa por dentro. Depois, com a mesma liberdade, abramos portas para fora: nas obras, nas paróquias, nas escolas, nas políticas públicas, nos mutirões, nos gestos possíveis. Porque o Evangelho sempre encontra o seu lugar preferido: um lar onde alguém finalmente pode morar em paz.
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