O final do ano de 2025 e o começo de 2026, com sua carga de notícias de alta tensão emocional, de conflitos e guerras que nos fazem respirar cheiro de pólvora como se isso fosse algo natural, colocam em xeque o sentido da fraternidade universal.
A overdose de medo semeada pela violência de todo tipo cria uma atmosfera cultural de “ruído” que atordoa e sufoca o sentido da vida.
Iniciamos o ano quase em um estado de estresse pós-traumático (TEPT), com sentimentos generalizados de ansiedade e angústia. Temos a mente tão embotada que nos é difícil formular opiniões, e estas acabam gerando, por sua vez, dolorosos abismos de incompreensão e fendas que criam distâncias.
Instalou-se a sensação de que, faça-se o que se fizer, nada vai mudar…
Uma metáfora providencial
A falta de vinho nas bodas de Caná pode ser uma metáfora muito apropriada para retratar a realidade que hoje nos desafia. Os jovens noivos passam por uma situação da qual quase não têm consciência, mas, em seu mundo, a alegria estava prestes a morrer.
Talvez seja uma paráfrase do que acontece, de modo especial, com os jovens de nosso tempo, a quem se limita o acesso a uma alegria genuína e que são seduzidos com enganos para participar de festas que deixam um gosto amargo na boca.
A aceleração e a imediatidade dos tempos os obrigam a projetar a própria vida sobre miragens de curtíssimo prazo, sem lhes permitir experimentar a energia de uma esperança que dá vida.
Muitos jovens, desde muito pequenos, foram privados dos vínculos de amor que dão solidez à pessoa e a enriquecem com uma experiência de liberdade básica, que lhes permite lançar-se à vida com criatividade.
A Estreia abre uma fresta…
Podemos dizer, “a partir de nosso coração oratoriano”, que crianças, adolescentes e jovens mais pobres, abandonados e vulneráveis (os prediletos da missão salesiana) são aqueles que correm maior risco diante dessas desgraças do nosso mundo globalizado.
A Estreia deste ano nos abre uma fresta de esperança e desperta o interesse em descobrir, assumir e comprometer-se com essa realidade. De certo modo, ela desperta em nós uma curiosidade que provoca o desejo de saber como discernir e como agir diante desses desafios desmedidos.
Diante de um mundo que encurrala os jovens em redes que os oprimem e confundem em seus sentimentos mais genuínos, em suas buscas de sentido e em seus sonhos de um mundo mais humano, o Reitor-Mor nos propõe fortalecer o dinamismo da FÉ para nos comprometermos mais livremente no serviço de transformação da realidade.
Maria, a mestra
Maria nos ensina a ver, a descobrir, a perceber o que está acontecendo. Nas bodas de Caná, João destaca a presença de seis personagens (individuais ou coletivos). Além de Maria, estavam Jesus e seus discípulos, os serventes, o mestre-sala e o noivo. O evangelista observa que somente Maria é quem percebe a realidade e reage diante dela: o vinho acabou.
Maria é consciente e ativa; não vive atordoada, alheia ou despreocupada. É sensível e se interessa; por isso percebe, descobre e age. Maria vê porque ama. Vê porque possui a luz interior que lhe permite sintonizar-se com a realidade de quem sofre e está pronta para agir em seu favor. Ela “está cheia do Espírito Santo”, e essa energia a move desde dentro e é a motivação do seu olhar. Ela nos ensina que a fé em Jesus parte da constatação de nossas fragilidades, de nossas impotências e vulnerabilidades, e muito particularmente daquelas que afetam os jovens.
Maria, a primeira crente
Ao mesmo tempo, ela percebe que a solução do problema não está em suas mãos. Ela é “pequena”, mas sabe quem pode assumir e transfigurar a realidade. Ela é a primeira a crer em seu Filho, em Jesus. E sua confiança de mãe “arranca” (podemos dizer) o primeiro “sinal” de sua missão, com a qual se inicia o anúncio do Reino. Ela sabe, crê, que em Jesus está a resposta.
A Estreia deste ano nos convida a dar as mãos a Maria para percorrer com ela o caminho da fé em Jesus, colocando em prática tudo o que Ele nos disser, para nos tornarmos, com maior liberdade, servidores dos jovens.