Em 23 de fevereiro, o Abrigo Dom Bosco completa 25 anos de atuação junto às pessoas em situação de rua que vivem na capital paulista. Mantido pelo Liceu Salesiano Coração de Jesus, o colégio salesiano mais antigo de São Paulo, o abrigo está localizado na região central da cidade, uma área com grande concentração de catadores de materiais recicláveis, e este é o principal público atendido. Ali eles recebem moradia fixa e digna, por tempo determinado, para que possam reestruturar a vida.
Embora seja a única obra da Inspetoria Salesiana de São Paulo dedicada a pessoas em situação de rua, a concepção e o funcionamento do Abrigo Dom Bosco exalam salesianidade, como afirma o atual gestor, Rafael Brassan Oliverio: “Aqui não fazemos a acolhida somente no sentido de oferecer um teto para se abrigar, mas sim de dar atenção ao ser humano de forma integral”.
Reorganização
Toda a estrutura é pensada para que a pessoa realmente se sinta em uma moradia segura e acolhedora. No abrigo, cada um dos 55 atendidos conta com cama forrada e cobertores, armário para guardar seus pertences, chuveiros para banho, sala de TV e sala de Informática. Todos os dias são servidos o café da manhã e o lanche da noite. Há vagas para quem precisa guardar a carroça usada na coleta de materiais recicláveis e, também, espaço para cuidar e abrigar os cachorros, que muitos atendidos têm como seus companheiros.
A proposta é que a pessoa encaminhada ao Abrigo Dom Bosco permaneça por um período de 18 até 36 meses. “Esse tempo vai ser utilizado para ela se organizar em todas as questões que sejam necessárias, como regularizar a documentação, abrir uma conta bancária, fazer uma poupança, conseguir outro emprego que não seja na área da reciclagem, terminar seus estudos, tratar da saúde... enfim, tudo o que essa pessoa precisar resolver”, explica Rafael.
Equipe qualificada e parcerias
O Abrigo Dom Bosco conta com um convênio público, com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, mas uma parte dos custos é coberta pelo Liceu Salesiano Coração de Jesus e pelas ações do próprio abrigo, como bazares e eventos de arrecadação.
Para atender os que são encaminhados ao local, o abrigo conta com uma equipe própria de 12 profissionais, entre porteiros, responsáveis pela limpeza e conservação, orientadores socioeducativos, assistentes sociais e coordenação. O atendimento na área da saúde é feito em parceria com o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, por meio da Unidade Básica de Saúde (UBS) Boraceia. É por esse convênio que os moradores do Abrigo Dom Bosco têm diariamente técnicos de enfermagem no local e, uma vez por semana, psicólogos e médicos.
Além da qualificação técnica, as equipes têm como característica estar o mais acessíveis possível, para que os moradores possam expressar o que precisam e tenham suas necessidades atendidas.
Diferenciais salesianos
“A ideia do Abrigo Dom Bosco, e talvez este seja um diferencial comparado à maioria dos centros de acolhida em São Paulo, é que nós somos porta de saída, no sentido de que quando a pessoa deixar de precisar do nosso trabalho é porque ela vai sair da rede socioassistencial; vai sair da situação de vulnerabilidade”, explica Rafael. Assim, o foco do atendimento é para que cada um fortaleça sua autoestima, volte a ter sonhos e projetos de vida e conquiste sua independência. “É o que nós chamamos de uma saída qualificada, em que a pessoa não vai voltar para a rua nem vai para outro abrigo”.
Outro diferencial destacado por Rafael é a afetividade com a qual os atendidos são recebidos e acompanhados. “Talvez por ser menor que outros centros de acolhida aqui da região central de São Paulo, que chegam a atender mais de mil pessoas por dia, ou pela formação salesiana que nós recebemos, aqui cada pessoa é vista individualmente e com afeto. Isso é algo que eles (os atendidos) falam muito, que aqui eles não estão em uma linha de produção; eles são vistos, são escutados, são percebidos como pessoas. Porque cada história é única, não é?”, reforça o gestor.
A história de Graciela
Entre as muitas histórias de vida que acompanhou no abrigo, Rafael relembra a de Graciela, uma das poucas mulheres que passaram pelo local, após várias tentativas – todas frustradas – de ressocialização em outros centros de acolhida. “Ela era uma pessoa em situação de rua que ficou muito tempo na vulnerabilidade e na dependência química, tinha dificuldade em se adaptar às regras de convivência, brigava muito. Quando a Graciela chegou aqui, encaminhada pelo projeto Reviravolta, de reciclagem, ela mesma achava que não ia dar certo”, rememora.
Mas Graciela foi acolhida com o mesmo cuidado e atenção que todos os outros atendidos no Abrigo Dom Bosco. Rafael conta que ela demandava muito, todos os dias pedia quatro ou cinco atendimentos diferentes, conversas, reunião... “às vezes a gente tinha que falar para esperar um pouquinho, que tinha os outros atendidos que ela precisava respeitar, mas percebíamos que ela necessitava de atenção, de ser ouvida de fato”.
Graciela teve a saída pedida (quando o próprio atendido solicita e não há desligamento compulsório) após dez meses. Com a ajuda da assistente social do Abrigo Dom Bosco, já tinha conquistado um novo emprego, com carteira assinada, fora da área da reciclagem. Ainda acompanhada pelos serviços de saúde, estava há meses sem fazer uso de álcool e drogas. Conheceu uma pessoa, com quem começou a namorar. Se sentia pronta para continuar trilhando seu caminho de forma autônoma.
No caminho de Dom Bosco
“Alguns dias atrás me chamaram que a Graciela estava no portão me procurando. Deu até um frio na espinha, pensei que ela tivesse regredido, que queria voltar para o abrigo”, conta Rafael. “Mas fiquei tão feliz de vê-la ali sorrindo, a arcada dentária completa que ela tinha conseguido arrumar; estava muito bem mesmo. Ia se casar, mudar para Suzano, uma cidade próxima da capital. Veio pedir se podíamos encaminhar o currículo dela para alguns locais de lá, para ela conseguir um novo emprego. São histórias assim que fazem a gente pensar que estamos no caminho certo”.
Para Rafael, esse é um exemplo de como o carisma salesiano se aplica ao Abrigo Dom Bosco, com a ressocialização que acontece por meio do afeto e da proximidade. Ele considera que a “chave” está em olhar o outro como a si mesmo, oferecendo mais do que um teto para se abrigar em uma noite de chuva ou de frio, o que também é algo importante, mas insuficiente para que a pessoa retome as rédeas de sua própria vida.
“O que eu penso e falo para todos é que hoje eu tenho uma moradia, tenho um armário cheio de alimentos, uma família que me apoia, mas amanhã pode ser diferente. Uma reviravolta da vida e eu posso estar em outra situação. Então, inspirados em Dom Bosco, o que a gente pensa aqui é como seria se estivéssemos em uma situação de rua? Como gostaríamos que nos tratassem? Que nos acolhessem? Que acreditassem em nós? E é isso que a gente faz”, conclui ele.
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