Projeto Pessoal de Vida

Repensar as relações na era da Inteligência Artificial

Em uma nova série de artigos para o Boletim Salesiano, padre João Mendonça trata sobre o impacto da Inteligência Artificial na elaboração do Projeto Pessoal de Vida.
Pe. João Mendonça, SDB / Fotos: iStock - ismagilov

É fato: estamos numa nova era, pois a Inteligência Artificial chegou para mudar, inclusive, as relações. Com a IA é possível criar nos personagens outras expressões, inclusive contraditórias; é possível recriar histórias e elaborar estórias, e, como bem disse o saudoso Papa Francisco: “com o progresso dos meios de comunicação o desafio é descobrir e transmitir a mística do viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade” (Evangelii Gaudium, 2013, 87). Assim, precisamos resgatar nossas relações para um novo humanismo.

O valor da cultura do encontro
A Covid-19 nos pegou de surpresa e mudou nossas agendas e nosso modo de viver. O isolamento sanitário foi necessário, sofremos com as perdas humanas, superamos a crise pandêmica com a chegada das vacinas, os cuidados de higiene e a solidariedade, porém, ficaram as sequelas.

Ficamos marcados com a síndrome do isolamento, perdemos em parte o envolvimento integral que engloba afetividade, sexualidade e eros, sim, porque o ser humano é um conjunto integral de sentimentos e tudo está em nós de forma harmônica. Isso tende à maturidade, porém, podemos nos perder no caminho, criar desvios, ter medo, deixarmo-nos inebriar pelo instinto. É preciso saber unificar nas relações consigo e com outros a unidade entre corpo e alma. Quando queremos anular a carne em favor da alma, um angelismo, então, perdemos a dignidade de sermos pessoas em relação. De sair de si para encontrar o outro no “amor de amizade”, que é o eros (Deus Caritas Est, 2005, 3-5).

Buscar pontos de encontro para o PPV
O que seriam esses pontos de encontro? A teóloga Maria Clara Bingemer, comentando o Papa Francisco, dizia: “trata-se de combater a indiferença que prevalece em todos nós, a superficialidade das relações, buscar um encontro verdadeiro e profundo com o outro” (A cultura do encontro, 2017).

Uma chaga social hoje é a indiferença, como naquela pergunta do mestre da Lei a Jesus, “quem é o meu próximo?” (Lc 10,29). O indiferente não agrega ao projeto de vida o outro, ele sempre está limitado ao presente e ao eu. Por isso a superficialidade ou, como bem dizia o Papa Francisco, “o mundanismo espiritual” mergulha a pessoa na frivolidade e tudo permanece na superfície, sem profundidade. Quem não constrói pontes de encontro e cura as chagas da indiferença e da superficialidade, jamais será feliz.

istock - Unai Huizi

“Precisamos resgatar nossas relações para um novo humanismo.”

A força do diálogo
Quando dialogamos, reconhecemos que o outro tem algo de bom para partilhar. Escutar e aceitar o que o outro tem a dizer é o melhor meio para superar a auto referencialidade. Quando nos debruçamos sobre o nosso próprio umbigo, não aprendemos, deixamos de nos enriquecer com o valor que o outro representa. No Projeto Pessoal de Vida, não se pode ficar com medo da luta interior para sair das tocas que criamos para nos esconder, pois “sair de si para se unir aos outros faz bem” (Evangelii Gaudium, 87).

Essa saída ao encontro do outro através do diálogo não corresponde aos métodos atuais de domínio e poder. Quem quer dominar não respeita a diversidade da outra pessoa. Quer simplesmente eliminar. Eis o dilema da sociedade que está diante do grande potencial da Inteligência Artificial, que provoca a mudança nos costumes, na educação, na arte, na saúde; enfim, em todas as formas de comunicação (Comissão Teológica Internacional, Quo Vadis Humanitas?, 2026, 31).

O potencial da IA, a velocidade com a qual tudo acontece, está transformando a forma de pensar e tanto pode aprimorar o conhecimento humano, como também tornar complexa a compreensão que temos de nós e de nossas perguntas fundamentais: quem sou? O que estou fazendo neste mundo? Qual é a minha missão? Qual é o sentido da minha vida? Para onde vou?

O digital, um instrumento vivo
Para viver segundo um PPV, a pessoa precisa de tempo, discernimento, escolhas. A tecnologia digital e, com ela, a IA, realiza uma nova forma de estruturar nossas vidas e as relações humanas. “O mundo digital leva as pessoas para um universo amplo e complexo de comunicação humana, social e cultural” (Setor de Comunicação Social da Congregação Salesiana, 2025, p. 19) com a força de gerar novas formas de conhecimento e relações. O que pode ser alterado? A forma de pensar sobre nós mesmos e nossas relações altera a noção de universalidade; muda a compreensão do próprio sujeito; muda, por conseguinte, as formas de relações consigo mesmo, com os outros e com Deus (Comissão Teológica Internacional, Quo Vadis Humanitas?, 2026, 33).

Surge, então, uma nova realidade relacional: o chamado metaverso, ou seja, um mundo virtual habitado por avatares em formato 3D. Trata-se de um universo de várias dimensões que leva a pessoa a flutuar num verdadeiro caleidoscópio do ambiente comunicacional. É uma nova linguagem, uma nova forma de pensar e agir, com velocidade, instantaneidade e interatividade.

Isso significa que as nossas sensações mudam e que esse ambiente envolve todos os sentidos. É complexo e o desafio está em saber canalizar tudo isso para o PPV (Setor de Comunicação Social da Congregação Salesiana, 2025, p. 20-21). Como entender, neste mundo veloz, o ser humano? É o tema do nosso próximo artigo, que procurará não dar receitas, mas iluminar o caminho.

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