Por suas boas maneiras, crescia a cada dia o número de amigos de Dom Bosco. Em 1866, precisamente em Milão, na Itália, ele fez sólida amizade com o advogado Comaschi.
Este era de princípios ditos liberais e presidente ou patrono da sociedade dos chapeleiros. Em nome desta, apresentara-se ao General Garibaldi quando da passagem por Milão. Garibaldi, agradecido pela saudação, lhe dera de presente o próprio chapéu. O advogado o colocou na sala de estar debaixo de uma campânula de vidro e, com orgulho, fazia que fosse admirado por todos os seus visitantes.
Em 1859, vindo a Turim para defender uma causa, ouviu falar de Dom Bosco e quis vê-lo. Acompanhado de outro advogado, chegou ao Oratório e Dom Bosco o acolheu com sua encantadora cortesia, entretendo-se sobretudo com o outro advogado que já conhecia. Comaschi falou pouco, mas observou com atenção, e ficou tão admirado com ele que disse depois:
- Dom Bosco não me parece um padre como os outros!
Daquele momento lhe reservou afeição e reverência indescritíveis.
Em 1866, tendo sabido que Dom Bosco se encontrava em Milão, convidou-o para almoçar em sua casa. Dom Bosco aceitou. O advogado estava fora de si pela alegria. E Dom Bosco, que sabia adaptar-se em todas as situações, sustentou a hilaridade dos convidados com a conhecida história daquele senhor alemão Dehuc, que viera à Itália para ir a Roma.
Naqueles tempos não havia ferrovias, viajava-se de carruagem, e se faziam diversas paradas para descansar. Dehuc gostava da cerveja, mas preferia o vinho, e do melhor; e sendo riquíssimo, mandou à sua frente, precedendo-o de alguns dias, um mensageiro, que a cada lugar aonde chegava, provava o vinho. Se o considerasse bom, escrevia com pincel na parede da pousada: est!, se fosse melhor: est! est!, e, se ótimo, est! est! est! O patrão o seguia fazendo paradas mais ou menos conforme a qualidade do vinho. Às vezes, apenas uma noite; outras, vários dias, e eram frequentes as bebedeiras.
Finalmente chegou a Montefiascone, e tendo visto numa pousada escrito est! est! est! desceu da carruagem, alugou um quarto e tomou um porre tão solene que veio a falecer. O empregado o fez sepultar numa magnífica sepultura, com uma inscrição que explicava a causa de sua morte: Est! Est! Est!... Sed propter nimium est! Herus meus Joannes Dehuc mortuus est! (tem, tem, tem!... Mas pelo muito est, meu patrão João Dehuc faleceu). Na lápide do túmulo ordenou que se fizesse uma perfuração através da qual, a cada ano, no aniversário da morte, se despejasse alguma quantidade de vinho para regar seus ossos.
A graça com que Dom Bosco contou essa anedota foi tal que nunca foi esquecida.
Nosso Pai e Mestre buscava ganhar as simpatias das pessoas para levar suas almas ao Senhor.
O advogado Comaschi convidou-o com grande insistência a se hospedar com ele todas as vezes que fosse a Milão, dizendo que o fazia dono de sua casa. Dom Bosco apreciou muito essa gentileza. E o resultado foi que, quanto mais o advogado tratava com ele, mais se tornava melhor, e pouco a pouco mudou de ideias; o chapéu de Garibaldi não teve mais o lugar de honra e no seu lugar colocou duas cartas de Dom Bosco, num quadro dourado.
Não é fácil imaginar o quanto se tornou amigo e admirador de Dom Bosco. Nunca permitiu que o quarto ocupado por ele fosse ocupado por outrem, o conservou sempre como um santuário, onde guardava tudo o que o santo usara à sua mesa, não deixando que copos, guardanapos, toalhas de mão fossem lavados. E enquanto viveu, os venerou como relíquias de um santo.
Assim nos confirmou Pe. Lourenço, que o ouviu dos próprios parentes de Comaschi.
Padre Osmar A. Bezutte, SDB, é revisor da nova tradução das Memórias Biográficas de São João Bosco (Editora Edebê).