Em um cenário de rápidas e constantes transformações no mundo do trabalho, a discussão sobre a redução da jornada ganha cada vez mais espaço. Modelos com menos horas semanais ou semanas de quatro dias já são testados em diversos países e começam a provocar reflexões também no Brasil. Mas, quando olhamos para a juventude, a pergunta central não é apenas econômica: que impacto essa mudança pode ter na formação dos jovens?
Para quem está iniciando sua trajetória profissional, o trabalho vai muito além da geração de renda. Ele representa um espaço de construção de identidade, de desenvolvimento de habilidades e de inserção social. É no trabalho que muitos jovens experimentam, pela primeira vez, responsabilidades, autonomia e pertencimento.
No Brasil, essa realidade ainda é atravessada por desafios importantes. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos costuma ser mais que o dobro da média geral da população. Além disso, muitos daqueles que estão ocupados enfrentam condições precárias: a informalidade atinge uma parcela significativa da juventude, especialmente entre os mais pobres. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), os jovens têm quase três vezes mais chances de estar fora do mercado de trabalho e da educação ao mesmo tempo.
Mais tempo para a educação
Nesse contexto, a redução da jornada pode trazer contribuições relevantes. Menos horas de trabalho podem significar mais tempo para a escola, para cursos de formação e para o desenvolvimento pessoal. Em um país onde conciliar estudo e trabalho ainda é um desafio, essa mudança pode favorecer a permanência escolar e melhorar o desempenho acadêmico.
A saúde mental dos jovens também entra em pauta. A sobrecarga, a pressão por resultados e a necessidade de adaptação precoce ao mundo adulto têm impactado diretamente o bem-estar juvenil. Uma jornada mais equilibrada pode contribuir para relações de trabalho mais saudáveis e para um início de vida profissional menos marcado pelo esgotamento.
Outro ponto fundamental é o tempo disponível para experiências que também educam. Atividades culturais, esportivas, comunitárias e pastorais fazem parte de uma formação integral — especialmente na perspectiva salesiana, que valoriza o encontro, a convivência e o protagonismo juvenil. Ter tempo para viver essas experiências é parte essencial do crescimento.
Políticas públicas
No entanto, a discussão exige cuidado. Em contextos de desigualdade, como o brasileiro, reduzir a jornada sem garantir proteção social pode trazer riscos, como a diminuição da renda, a redução de oportunidades de emprego e o aumento da informalidade, fatores que atingem de forma mais intensa os jovens em situação de vulnerabilidade.
Por isso, o debate precisa estar conectado a políticas públicas e a modelos de inclusão produtiva que considerem as especificidades das juventudes. A Lei da Aprendizagem, no Brasil, já aponta um caminho possível ao integrar trabalho e formação, respeitando o tempo e o processo de desenvolvimento do jovem.
Programas de aprendizagem
É nesse horizonte que se destacam os programas de aprendizagem desenvolvidos pelos salesianos e salesianas em todo o país. Inspirados no carisma e na visão integradora e garantidora de direitos de Dom Bosco e Madre Mazzarello, esses programas compreendem o trabalho como espaço educativo, onde o jovem é acompanhado, orientado e incentivado a crescer de forma integral, não apenas como profissional, mas como pessoa.
Mais do que inserir no mercado, trata-se de formar para a vida. Em cada jovem acompanhado, há uma história que encontra novas possibilidades; em cada oportunidade oferecida, há um futuro que se redesenha com dignidade e esperança.
Diante das mudanças no mundo do trabalho, permanece atual a intuição de Dom Bosco: é preciso estar ao lado dos jovens, especialmente os mais vulneráveis, oferecendo não apenas oportunidades, mas presença, escuta e sentido. Afinal, para a juventude, o tempo não é apenas um recurso produtivo, mas é também um espaço sagrado de formação, onde Deus continua a agir e a semear esperança.
Carolina Neves de Oliveira é coordenadora inspetorial da Ação Social da Inspetoria São João Bosco (ISJB).