Mensagem do Reitor-Mor

Nós também estamos entre os 72?

Também nós somos enviados. Os nossos locais de trabalho, bairros, famílias e amizades são as “cidades e lugares” onde Cristo quer ir, e manda-nos lá à sua frente para preparar o caminho.
Pe. Fabio Attard – Reitor-Mor dos Salesianos

No Evangelho de Lucas, no início do capítulo 10, (versículos 1-19), Jesus alarga a sua missão para além dos Doze, enviando 72 discípulos à sua frente para preparar o caminho. É o momento decisivo: a missão já não é reservada a um pequeno círculo apostólico, mas alarga-se a um grupo mais amplo de seguidores. A implicação é clara: cada discípulo é missionário, enviado a um local determinado para tornar Cristo presente no mundo.

Para os cristãos de hoje, que trabalhamos em escritórios ou hospitais, criamos filhos em casa ou servimos nas escolas, gerimos empresas ou cuidamos dos idosos, esse trecho fala diretamente à nossa vocação batismal. Também nós somos enviados. Os nossos locais de trabalho, bairros, famílias e amizades são as “cidades e lugares” onde Cristo quer ir, e envia-nos à sua frente para preparar o caminho.

As instruções que Jesus dá não são só para os “profissionais” religiosos, mas para todos aqueles que agem em seu nome. São instruções que revelam como deve haver testemunho cristão em qualquer contexto: levar pouca roupa, levar paz, curar quem está ferido, anunciar a proximidade do Reino através da realidade concreta das nossa vida.

Numa cultura que com frequência relega a fé para uma convicção privada ou culto dominical, Lucas 10 reivindica toda a vida como território missionário. As três reflexões a seguir mostram como as palavras de Jesus aos 72 iluminam o que significa viver como discípulos enviados às circunstâncias normais da vida cotidiana.

Viajar com pouca bagagem
“Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias”. Jesus envia os seus discípulos deliberadamente vulneráveis, radicalmente dependentes de Deus e da hospitalidade dos outros. Esta instrução desafia os pressupostos fundamentais da vida contemporânea: que a segurança derive da acumulação, que o valor provenha da autossuficiência, que devamos ter sempre tudo sob controle. Para os cristãos que enfrentam a vida normal – profissão, responsabilidades familiares, pressões econômicas – este apelo à pobreza evangélica não significa abandonar uma planificação prudente ou uma gestão responsável. Antes, apresenta uma pergunta espiritual mais profunda: em que confiamos de verdade?

Vivemos numa cultura que nos ensina a confiar nas nossas capacidades de gerir todas as eventualidades. Amontoamos certificados, credenciais, contatos – fabricando “bolsas” cada vez maiores. E cansamo-nos procurando manter a ilusão da autossuficiência.

A instrução de Jesus liberta-nos desse peso. Viajar com pouca bagagem significa reconhecer a nossa dependência fundamental da providência de Deus, da comunidade dos crentes, da graça que nós não podemos fabricar. Significa estarmos dispostos a reconhecer quando não temos a resposta, quando precisamos de ajuda, quando os nossos planos cuidadosamente elaborados caem por terra e temos de confiar que Deus providenciará outro caminho.

Em termos práticos: admitir que não somos perfeitos, e que manter uma imagem perfeita acaba por nos tornar escravos; ser honestos com os filhos em relação às nossas dificuldades; escolher a simplicidade ao invés da acumulação, a presença ao invés da produtividade, a confiança ao invés da ânsia.

Não somos chamados a ser cristãos que parecem ter resolvido tudo. Somos convidados a descobrir que Cristo é suficiente, que a sua graça basta de fato, que a dependência de Deus é pura liberdade.

iStock/Punnarong

"Não somos chamados a ter tudo resolvido, mas a descobrir que Cristo é suficiente."

Presença num mundo fragmentado
“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: «A paz esteja nesta casa»”. Antes de qualquer atividade ou produtividade, que haja paz. Vivemos vidas fragmentadas, estamos presentes pela metade nas conversas. Jesus manda-nos levar paz. Atenção: não é a paz superficial, fruto da ilusão de ter tudo sob controle, mas a paz verdadeira, profunda, que provém de saber que somos sustentados por Deus, mesmo no caos.

Essa paz é testemunho contra-cultural. É quando os colegas estão estressados e nós continuamos bem, não através da negação, mas através da confiança. Quando os bairros estão ansiosos e nós oferecemos presença calma, não através da ingenuidade, mas através da esperança. Pense nas casas em que você entra diariamente: o local de trabalho, a sua casa, a reunião, a escola dos filhos, o bairro. Levar paz poderia significar ações simples, tais como: não participar das fofocas sobre o trabalho, mas falar com respeito; criar uma atmosfera doméstica onde as pessoas possam respirar e onde haja espaço para o silêncio; ser o vizinho que escuta sem julgar.

Essa paz torna-se particularmente poderosa e significativa para quem está lutando. Quantas pessoas levam fardos invisíveis, lutas de saúde mental, preocupação financeira, crises relacionais, desespero existencial. Não precisam de soluções. Precisam de alguém que possa estar com elas na dor sem ser desestabilizadas, alguém que irradie uma paz que sugere terreno sólido sob o caos.

O nosso testemunho cristão mostra principalmente quem somos: pessoas que encontraram uma paz que o mundo não pode dar nem tirar.

Cura e proclamação: tornar o Reino visível
“Curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: «O Reino de Deus já está próximo de vós.»”. Palavra e ação são inseparáveis. Isto significa reconhecer as feridas à nossa volta e responder com atos concretos de empatia. Reconhecer o sentido do vazio e da falta de sentido que alguns têm, da competição impiedosa, do burnout de outros, oferecendo-lhes o dom de uma presença que sabe escutar sem julgar. Estar próximo de quem se sente isolado com pequenos gestos simples, mas que deixam uma marca no coração em sofrimento.

O Reino de Deus torna-se próximo quando as pessoas podem dizer: “Encontrei algo de diferente aqui. Fui acolhido, valorizado, restabelecido”.

Assim cresceu a Igreja primitiva, não tanto através de pregações eloquentes, mas através de comunidades que viviam de forma tão diferente que as pessoas eram impelidas a perguntar: “O que tendes que nós não temos? Porque amais assim? Donde vem esta esperança?”.

A nossa vida torna-se a proclamação. E quando as pessoas perguntam, estamos prontos a indicar a fonte: “O Reino de Deus está próximo de vós. O amor que vós sentistes não veio só de nós; vem de Cristo, que fez novas todas as coisas e que vos convida para esta nova realidade”.

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