Futebol

O Futebol de Rua como ponte para o futuro

O Futebol de Rua, prática esportiva e educacional nascida na Argentina, incentiva o respeito, a cooperação e a solidariedade de meninos e meninas em três obras sociais das Filhas de Maria Auxiliadora em São Paulo.
Ana Cosenza, com informações: Rafael Dias, Viviane Monteiro e Hudson Ferreira Gonçalves

Imagine um esporte cujo principal objetivo não é ganhar, mas sim, verdadeiramente, desenvolver a cooperação e a solidariedade. Um jogo de futebol no qual meninos e meninas de várias idades entram no campo (ou na quadra, na sala, na rua...) em pé de igualdade, as regras são estabelecidas pelos próprios jogadores e não há árbitro nem “auxiliar”. E, mesmo sem esse controle externo – ou talvez justamente por isso -, todos jogam com vontade e alegria, dispostos a defender o seu time e a respeitar os adversários. Pois o Futebol de Rua é tudo isso e muito mais.

O diferencial entre o Futebol de Rua e o futebol tradicional começa na estrutura do jogo. Nessa metodologia trazida da Argentina e adaptada no Brasil pela Ação Educativa, a partida é dividida em três tempos pedagógicos. No primeiro, os próprios participantes dialogam para estabelecer as regras que guiarão a disputa. No segundo tempo, a bola rola com o foco na cooperação e no respeito mútuo. Por fim, o terceiro tempo é dedicado à reflexão coletiva, com os jogadores avaliando se os acordos foram cumpridos. Somente após essa conversa é que o vencedor é definido, pois o número de gols não é o único nem o principal critério adotado.

No Estado de São Paulo, três obras sociais ligadas às Filhas de Maria Auxiliadora (FMA) perceberam no Futebol de Rua uma metodologia educativa que apresenta muitos pontos em comum com a proposta educativo-pastoral salesiana. Assim, desde 2018, o Futebol de Rua faz parte das práticas esportivas dessas obras.

Valores em campo
A primeira casa das FMA a adotar o Futebol de Rua, em 2018, foi a Obra Salesiana de Apoio Fraterno (OSAF), localizada em Araras, SP. Na instituição, o projeto é compreendido como uma ferramenta vital de convivência e fortalecimento de vínculos para crianças e adolescentes de 6 a 15 anos. Neste ano de 2026, é conduzido pela educadora social de Esportes, Maria Alice, e integra o cronograma semanal da OSAF, transformando o camp o em um laboratório de cidadania e protagonismo juvenil.

A prática é fundamentada em pilares que orientam cada chute e cada passe. Além do respeito, da cooperação e da solidariedade — valores intrínsecos à essência do projeto — a honestidade foi integrada pela OSAF como um pilar fundamental. Esses valores são vivenciados intensamente em um ambiente que preza pela equidade de gênero: meninos e meninas ocupam o campo juntos, aprendendo que o respeito à diversidade e a cultura de paz são as regras de ouro para uma sociedade mais justa.

Essa abordagem inclusiva não apenas desenvolve habilidades socioemocionais, mas também estimula uma visão crítica sobre o mundo. Ao jogarem juntos, os educandos reforçam a importância de uma convivência saudável e solidária, onde a vitória coletiva no diálogo é tão celebrada quanto um gol.

O sucesso da iniciativa tem permitido que o projeto rompa barreiras geográficas e sociais. Em 2023, o Futebol de Rua expandiu sua atuação em Araras para o bairro Milton Severino (Jardim Aeroporto), fortalecendo os laços comunitários e disseminando seus valores em novos territórios. A relevância do trabalho também ganha destaque em eventos externos. Doze adolescentes representaram a instituição na 13ª edição do Encontro da Rede Paulista de Futebol de Rua, realizada em São Paulo. Participar dessas vivências demonstra que o futebol de rua na OSAF é, acima de tudo, uma expressão cultural capaz de unir, educar e inspirar.

Protagonismo e autorresponsabilidade
“A base do Futebol de Rua é o protagonismo e a autorresponsabilidade dos participantes, sejam crianças ou adolescentes”, afirma Viviane Oliveira Monteiro, gerente de Serviço no CCA Santa Lúcia, da Organização Centro Comunitário Oscar Romero. Nesta obra, localizada na periferia da zona sul de São Paulo, SP, a ideia de participar do projeto começou em 2018, mas, devido à pandemia da Covid-19, só começou a funcionar de fato em 2021. Atualmente, 180 crianças e adolescentes, de 6 anos a 14 anos e 11 meses, têm entre as oficinas de esportes da instituição a oferta do Futebol de Rua.

Viviane destaca que o Futebol de Rua foi importante na retomada das atividades presenciais após a pandemia, já que permite trabalhar muito bem o respeito, a cooperação e a solidariedade, ao mesmo tempo que desenvolve a autonomia dos jovens. “Eu costumo dizer que no Futebol de Rua ou você ganha ou você aprende. Porque aprende a conviver, a se posicionar, a defender seu ponto de vista, sempre com respeito à opinião do outro. Mais ‘salesiano’ que isso não existe”, considera ela, para em seguida listar alguns pontos em que o projeto e a salesianidade se encontram: “O Futebol de Rua trata de protagonismo, de fortalecimento pessoal e coletivo, de desenvolvimento social. Ele tem muito ainda daquilo que Dom Bosco gostava de ver no oratório: o pátio em movimento, o esporte, a vida dos jovens, porque é uma modalidade que integra o desenvolvimento físico à prática de valores”.

Na capital paulista, o exemplo da obra salesiana também foi disseminado pelo território. Desde 2008, é realizado anualmente, no mês de julho, um torneio de futebol que envolve todos os 23 serviços socioassistenciais que atendem crianças e adolescentes nos distritos de Cidade Ademar e Pedreira. A partir de 2021, a modalidade adotada no evento é o Futebol de Rua.

Viviane considera que o Futebol de Rua é uma experiência que “faz os olhos brilharem”. “É uma prática de futebol que vai na contramão do que a gente vê nos estádios, porque é uma ferramenta de promoção da cultura de paz. A gente está falando de paz quando propomos um futebol que aceita todo mundo, que tem como premissa o respeito, que olha o outro como um par, como alguém que é igual a mim, independente do gênero, do corpo, da idade”, ressalta.

Meninos e meninas com a bola nos pés
Uma característica fundamental do Futebol de Rua é que ele é misto: meninos e meninas jogam juntos, e cabe aos próprios jogadores e jogadoras estabelecer regras que permitam que todos e todas participem em pé de igualdade. Esse é um dos pontos mais trabalhados pelos educadores sociais de esportes no Centro Social Maria Rita Pèrillier (CEMARI), em Lorena, SP. A obra atende cerca de 100 crianças e adolescentes de 6 a 17 anos nas oficinas de esportes, sendo que mais da metade são meninas. Hudson Ferreira Gonçalves, educador da Oficina de Esporte e coordenador de Pastoral do CEMARI, considera que esse foi um fator determinante para a alta participação feminina no Futebol de Rua.

Ele conta que a modalidade chegou ao CEMARI em 2019, quando, inspirados na OSAF, os educadores começaram a fazer os cursos para mediadores da Federação Paulista de Futebol de Rua. A relação entre essa nova forma de jogar futebol e a proposta educativa e pastoral da obra foram logo percebidas. “Começa com a acolhida, que é onde você vai conhecer os jovens, vai entender que cada um vem de uma região diferente e de uma realidade diferente. E antes de praticar o Futebol de Rua, vamos sentar com esses jovens e organizar o jogo, o que é feito muito em cima do tripé salesiano, da razão, religião e amorevolezza”, considera Hudson.

A divisão das turmas também tem uma visão bem salesiana: na turma Laura Vicuña ficam as crianças menores, que estão iniciando no Futebol de Rua e aprendendo o que são os três tempos do projeto: discussão das regras, jogo e debate posterior. Já a turma Zeferino Namuncurá é composta por adolescentes que já conhecem bem o Futebol de Rua, participam das competições estaduais e dos cursos de mediação – inclusive, um dos atuais educadores da Oficina de Esportes do CEMARI é ex-aluno do projeto do Futebol de Rua. Destacam-se ainda os jovens da Articulação da Juventude Salesiana (AJS) que participam dessa modalidade esportiva, muitas vezes atuando como mediadores na turma infantil.

Para Hudson, um dos principais pontos de convergência entre o Futebol de Rua e a salesianidade é a importância de estar onde os jovens estão. “O futebol é uma realidade nossa de vida, de história, de construção de caráter mesmo dos nossos jovens. E o Futebol de Rua apresenta essa proposta de paz, de que todos podem praticar o esporte e que precisamos aprender a ter respeito, cooperação e solidariedade. Isso acaba trazendo também a proposta salesiana de respeitar a cultura juvenil e o histórico do local em que a gente vive”.

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