Vivemos em uma sociedade marcada por transformações aceleradas, na qual os jovens enfrentam desafios complexos para compreenderem a si mesmos e ao seu papel no mundo. Nesse cenário, a proposta de “empreender a si mesmo” ganha relevância como uma jornada de autoconhecimento e transformação. Trata-se de um movimento que articula identidade, sentido de vida, responsabilidade social e protagonismo. Mais do que uma escolha individual, esse caminho é uma resposta coletiva e educativa aos anseios e potencialidades das juventudes. É também um chamado à missão de educadores, famílias e comunidades para que escutem, acompanhem e inspirem essa construção.
William Damon, professor de Educação na Universidade de Stanford, em sua obra O que o jovem quer da vida? (2008), aponta que o desenvolvimento de um propósito de vida está diretamente ligado ao crescimento pessoal e ao engajamento social dos jovens. Para o autor, “os jovens que desenvolvem um senso de propósito tornam-se mais resilientes, focados e capazes de contribuir significativamente para a sociedade. O propósito não é um destino final, mas uma bússola que orienta suas escolhas e dá significado às suas jornadas”.
Muito além da autorrealização
Esse olhar reforça que empreender a si mesmo vai além da autorrealização; é uma missão de construção de sentido, que conecta cada jovem a algo maior do que si mesmo. Essa perspectiva nos interpela enquanto educadores: exige de nós disponibilidade para escutar, aprender e ressignificar o olhar sobre as juventudes com quem caminhamos.
Empreender a si mesmo é, antes de tudo, um ato de cuidado. Cuidado consigo, com o outro e com a Casa Comum. A esse respeito, a encíclica Laudato Si’ (2015), do Papa Francisco, traz uma mensagem poderosa: “Tudo está interligado, e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros”.
O apelo por vínculos mais humanos e solidários ressoa nos desejos das juventudes contemporâneas. Os jovens clamam por conexões verdadeiras, por justiça social, por transformações estruturais — sonhos que dialogam profundamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial o ODS 4, que visa assegurar educação inclusiva e equitativa de qualidade, e o ODS 10, que busca reduzir desigualdades.
Um contexto desafiador
No contexto brasileiro, o Atlas das Juventudes (2021), produzido pela Rede Conhecimento Social, oferece dados alarmantes e reveladores: 67% dos jovens consideram a desigualdade social o maior problema do país. Paralelamente, 48% acreditam que a educação é o principal caminho para transformação, mas apenas 36% sentem-se realmente preparados para os desafios do futuro.
Esses números revelam uma juventude esperançosa, mas também vulnerável. Cabe a nós, educadores e educadoras, especialmente no carisma salesiano, fomentar o desenvolvimento de competências socioemocionais como resiliência, empatia, criatividade e autonomia. Tais habilidades devem ser cultivadas não apenas como instrumentos para o sucesso individual, mas como fundamentos de um projeto de vida comprometido com a justiça e a sustentabilidade.
As juventudes, com suas expressões culturais, seus corpos diversos e seus modos de estar no mundo, são portadoras de saberes e perguntas que desafiam as certezas adultas. Cada espaço educativo — seja a escola, a bora social, a paróquia, o oratório ou o ambiente digital — é território de encontro e escuta.
Para Dom Bosco, era essencial que os jovens se sentissem amados e compreendidos. Ele afirmava: “Não basta amar os jovens, é preciso que eles saibam que são amados”. Essa máxima nos provoca ainda hoje: estar ao lado da juventude é mais do que ensinar; é habitar seu mundo, partilhar suas buscas e manter uma esperança ativa diante das adversidades. Empreender a si mesmo, portanto, significa assumir com coragem a missão de formar “bons cristãos e honestos cidadãos”, capazes de transformar realidades a partir da própria história.
Educar para o Projeto de Vida
Nesse horizonte, o Projeto de Vida emerge como eixo estruturante da educação integral. Sua proposta vai além da preparação para o mundo do trabalho: trata-se de um processo contínuo de (re)significação existencial, em que o jovem constrói, reconstrói e assume sua trajetória com sentido e responsabilidade. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ao propor competências como autogestão, empatia e protagonismo, aponta para a necessidade de uma formação humana integral. Quando essas competências dialogam com os ODS e com os valores do Evangelho, geram sujeitos capazes de fazer escolhas éticas, solidárias e sustentáveis.
Educar para o Projeto de Vida é, sobretudo, um convite à construção coletiva de narrativas. Não se trata de impor caminhos, mas de acompanhar processos, confiando na potência criativa dos jovens. Como nos lembra novamente William Damon, “o propósito não é um destino, mas uma bússola”.
Ao empreender a si mesmo, cada jovem assume o risco e a beleza de ser autor de sua própria existência, tecendo sentidos, relações e compromissos. E é nesse movimento — profundamente humano, educativo e espiritual — que a educação encontra sua vocação mais genuína: formar sujeitos que amam a vida e que não deixam ninguém para trás, como nos convoca a Agenda 2030 das Nações Unidas.
Bruna Dorneles Silveira é professora de Projeto de Vida e Matemática no Colégio Dom Bosco de Porto Alegre. Licenciada em Matemática e mestre em Educação em Ciências e Matemática pela PUCRS.