Nas bodas de Caná, Maria desempenha um papel muito significativo e, poderíamos dizer, “icônico”. Ela é modelo de fé para todo crente. Em primeiro lugar, é ela quem percebe a falta de vinho (na narrativa, parece ser a única que se dá conta...) e, em seguida, leva a informação ao seu Filho, dizendo-Lhe: “Eles não têm mais vinho”.
Diante de um problema, diante de uma situação difícil, ela imediatamente se dirige Àquele que sabe ter o poder de oferecer uma resposta. Maria é a primeira a crer em seu Filho. E nisso já se torna um sinal que orienta as nossas escolhas. Não fica paralisada diante do problema, não se irrita, não permanece girando em torno da questão, não se angustia, não procura culpados... Dirige-se diretamente ao seu Filho com simplicidade, sem chamar atenção, com uma confiança comovente, que expressa sua total convicção.
Maria, uma fé provada
A resposta de Jesus se apresenta, ao nosso modo de entender, como bastante fria e evasiva: “Mulher, que queres de mim? Ainda não chegou a minha hora”.
Com essa afirmação, parece querer desvincular-se do problema que sua Mãe acaba de lhe confiar, como se Ele estivesse em outro plano. Está ali, naquela festa de casamento, mas seu olhar permanece atento somente ao projeto de seu Pai, Deus.
Maria já havia escutado algo semelhante quando, aos 12 anos, Jesus fica no Templo e lhes reprova a preocupação por tê-Lo procurado na caravana: “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2,49-51).
Agora Jesus cresceu, mas ela também amadureceu e se consolidou na fé. De fato, não se desanima nem se intimida, nem perde a iniciativa diante de uma resposta que parece esquivar-se do problema.
Quando Deus aparenta não ver, não escutar as nossas orações, que atitude assumimos? Muitas vezes desfalecemos, angustiamo-nos e até nos irritamos com Ele.
Maria continua acreditando, porque o seu amor se tornou mais autêntico e sua fé já não é fruto de lógicas ou crenças humanas, mas de uma alma inflamada de amor. É o seu amor que sustenta a fé e a transforma em ouro puro.
Maria, mestra da liberdade
É aqui que se percebe a total liberdade interior da Virgem. Ela não responde nada, nem sequer insiste; não se perturba diante da resposta evasiva do Filho e, sem hesitar, diz aos serventes: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.
A verdadeira liberdade implica assumir total responsabilidade em nossas decisões, superando toda barreira ou insegurança. A autêntica liberdade apoia-se numa certeza interior que nasce de sentir-se firmado na pedra angular, no amor de Deus que é mais forte: “Ainda que eu atravesse os vales tenebrosos, nenhum mal temerei, porque Tu estás comigo” (Sl 23,1-3).
A fé de Maria a torna livre. Maria arrisca. Tem uma fé corajosa. Confia-se inteiramente ao seu Filho, acreditando que Ele intervirá. É uma fé livre de todo medo, insegurança ou confusão, porque crê firmemente que seu Filho não a decepcionará.
Por isso, toma toda a liberdade do mundo para dizer aos serventes: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Sua segurança é absoluta. Ama tão profundamente seu Filho e O conhece tão bem...
E essa fé, poderíamos dizer, “arranca” do Filho o primeiro milagre, o primeiro sinal de sua divindade. A água se converterá em vinho e a festa não fracassará. Haverá alegria naquela comunidade.
Maria, a “Auxiliadora”
Maria, nas bodas de Caná, sai em auxílio dos noivos cuja festa estava prestes a perder a alegria.
Maria detém um poder que bem sabe não lhe pertencer: é de seu Filho. Um poder que a torna livre e capaz de suscitar a máxima confiança. Ela não decepciona: sempre consola, recompõe, eleva, cura, quer o bem sem reservas.
Dom Bosco tinha tamanha confiança nela que difundiu esse poder de Maria como a Auxiliadora, promovendo uma oração tradicional atribuída a São Bernardo, mas que ele utilizava com imensa fé e propagava para obter graças de Maria Auxiliadora: “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que recorreram à vossa proteção, implorando o vosso auxílio, fosse por vós desamparado”.
Que a Estreia deste ano nos impulsione a imitar Maria em seu ser crente e livre para servir, e nos renove na certeza de seu auxílio em toda situação e circunstância.