Missões

Projeto esportivo entre os jovens Yanonami* do Pico da Neblina

Conheça o projeto Puhi taorewë pë no maipɨ (jogos estudantis), que estimula os jovens indígenas à prática esportiva como caminho de fortalecimento cultural.
Pe. José Ivanildo de Oliveira Melo, SDB

O futebol é uma paixão nacional, isso já sabemos. Para a população Yanonamɨ da região do Rio Cauaburis e afluentes, no Parque Nacional do Pico da Neblina, não é diferente. Diversas práticas esportivas são vividas intensamente em campeonatos, torneios, gincanas e, sobretudo, no lazer comunitário cotidiano.

Pensando nisso, a Escola Estadual Indígena Imaculada Conceição, situada no distrito de Maturacá, Município de São Gabriel da Cachoeira, AM, elaborou o Projeto Puhi taorewë pë no maipɨ (jogos estudantis). O projeto visa, por meio de disciplinas escolares específicas, como Práticas Corporais, Formas Próprias de Educar e Bem-viver, estimular os alunos à prática esportiva como caminho de fortalecimento cultural e associação juvenil.

O projeto atende mais de 400 adolescentes e jovens da 7° do Ensino Fundamental ao 3° ano do Ensino Médio, além de alunos de outras sete comunidades e salas anexas que se encontram uma vez por ano para os Jogos Estudantis e a realização da Assembleia Jovem Yanonamɨ.

Aprendendo com Dom Bosco
Aprendemos com Dom Bosco que o esporte possui em si mesmo um profundo valor educativo. Entretanto, nosso desejo como direção da escola era que o puhi taorewë pë no maipɨ tivesse, desde sua origem, um claro vínculo com o fortalecimento da cultura Yanonamɨ e a promoção da cidadania. Nesse sentido, encontramos na parceria com a Assembleia Jovem Yanonamɨ, projeto que é financiado pela Inspetoria São Domingos Sávio e pela Rede Salesiana Brasil, o perfeito equilíbrio entre esporte e compromisso social, festa e fortalecimento cultural.

Doroteia Figueiredo Mendonça, professora de Práticas Corporais e coordenadora do projeto, afirma que “os alunos têm, nessas atividades socioesportivas, uma oportunidade valiosa de prática corporal, engajamento escolar e desenvolvimento de várias dimensões de sua cidadania Yanonamɨ”.

O futebol na tradição Yanonami
De fato, as atividades giram em torno do esporte, mas jogar não é a única função do projeto. O projeto busca em primeiro lugar fazer um resgate dos valores, da tradição dos conhecimentos ancestrais presentes nas práticas esportivas e de como essas práticas se relacionam com os jovens e toda a comunidade. Por isso, há momentos de formação e de escuta dos anciãos, como condições para a realização dos jogos, além, claro, de bom rendimento escolar.

Na tradição Yanonamɨ, existe a história de Yoasiwë e Omawë, irmãos gêmeos filhos de Moyenayoma e de um pajé Kiaromãri, que quando crianças jogavam entre as montanhas da região com uma bola feita do intestino de uma anta que haviam caçado. Essa história ancestral faz crer em uma relação antiga e, de certo modo, desconhecida, do Povo Yanonami com o futebol.

Vilmar da Silva Matos, professor Yanonami de Educação Socioambiental, reforça que “Yoasiwë (Pata) e Omawë (Oxe), jogavam futebol entre os Picos da Neblina e o monte Everest (chamado pelos Yanonami de monte Kayapa) em tempos ancestrais e que séculos depois, visitando espiritualmente a Inglaterra, viram o futebol ser regulamentado por lá e lamentaram não ter sido reconhecido o Brasil como seu criador”.

Apoio aos jogos estudantis
A primeira culminância do puhi taorewë pë no maipɨ aconteceu em agosto de 2025, na Missão de Maturacá, e reuniu mais de 700 adolescentes e jovens participantes de todas as comunidades da região. Neste ano de 2026, o evento está programado para os dias14, 15 e 16 de agosto, na comunidade do Maiá, e deverá contar novamente com delegações de todas as comunidades.

Ao entregar os materiais esportivos para o projeto na escola de Maturacá, em maio deste ano, o padre Felipe Bauzière, inspetor Salesiano da Amazônia, afirmou: “Acreditamos nos jovens, acreditamos no valor educativo do esporte e por isso não medimos esforços para apoiá-los”.

*O Boletim Salesiano utiliza a grafia Yanonami por ser mais próxima à forma como este povo originário se autodenomina.

Padre José Ivanildo de Oliveira Melo, SDB, é diretor da Missão de Maturacá e da Escola Estadual Indígena Imaculada Conceição.

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