Família Salesiana no Brasil

Um amplo movimento em favor dos jovens

Atualmente, 32 grupos são reconhecidos oficialmente como membros da Família Salesiana. Destes, 15 estão presentes no Brasil e três foram iniciados em nosso país.
Redação Boletim Salesiano, com informações Euclides Fernandes

“Eu sempre precisei de todos!”. A frase dita por Dom Bosco já no final de sua vida é, a um só tempo, testemunho do passado e profecia. São João Bosco inspirou o início de um vasto movimento de pessoas que trabalham de diversos modos em favor das juventudes. Ele mesmo fundou a Sociedade de São Francisco de Sales (Salesianos de Dom Bosco), o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), a Associação de Maria Auxiliadora (ADMA) e a Associação dos Salesianos Cooperadores (SSCC).

Incluindo estes e outros que surgiram em diversas partes do mundo, a Família Salesiana de Dom Bosco compreende hoje 32 grupos oficialmente reconhecidos, com um total de mais de 402.500 membros. Esses grupos vivem em comunhão recíproca, compartilham a mesma espiritualidade do fundador e continuam a missão iniciada por ele, conforme rege a Carta de Identidade Carismática da Família Salesiana. Entretanto, cada grupo tem um carisma específico, promovendo a unidade na diversidade.

No Brasil, atuam 15 grupos da Família Salesiana, sendo que três deles foram fundados em território nacional: a Congregação das Irmãs de Jesus Adolescente, criada por dom Vicente Priante, a Comunidade Canção Nova, fundada pelo monsenhor Jonas Abib, e o Instituto Religioso das Irmãs Medianeiras da Paz, fundado por dom Antônio Campelo de Aragão.

Encontro Nacional
Nos dias 13 e 14 de junho, 28 representantes desses grupos se reuniram no Encontro Nacional da Família Salesiana no Brasil, realizado no Instituto São Vicente, em Campo Grande, MS. O encontro foi um momento para que os grupos que compõem o carisma salesiano no país pudessem refletir sobre a missão compartilhada e se preparar para um evento de alcance mundial.

O tema central do evento foi “Aprofundar e viver o Sistema Preventivo de Dom Bosco, como Família Salesiana”. A escolha não foi por acaso: o encontro serve de preparação para o Congresso Internacional sobre o Sistema Preventivo, previsto para abril de 2027 em Roma, em celebração aos 150 anos de um documento escrito pelo próprio Dom Bosco sobre sua metodologia pedagógica e espiritual.

O padre Felipe Bauzière, inspetor de Manaus e inspetor referente para a Família Salesiana, ressaltou a dimensão do grupo presente: “São 15 grupos diferentes na Família Salesiana no Brasil; no mundo são 32 grupos”. Para ele, o momento foi essencial para que os membros pudessem se sentir melhor como Família Salesiana e, também, caminhar juntos.

A irmã Maria Américo Rolim, inspetora do Recife e referente das FMA para a Família Salesiana, também desempenhou um papel central na coordenação do evento, conduzindo momentos de reflexão e a avaliação final das atividades. Em sua fala, ela enfatizou que o Sistema Preventivo não deve ser visto meramente como uma técnica pedagógica, mas como uma identidade transformadora.

A partir desse encontro nacional, o Boletim Salesiano propôs esta edição especial sobre a Família Salesiana no Brasil e realizou entrevistas com os dois inspetores referentes, para que aprofundassem com os leitores do BS como esses diferentes grupos se expressam no Brasil, quais são os elementos de união entre eles e como tem sido o trabalho de animação e impulsionamento da Família Salesiana no país.

Boletim Salesiano – Quais são os fatores que unem todos os grupos da Família Salesiana no Brasil?
Irmã Maria Américo Rolim – Antes de tudo, é a consciência de ser uma Família espiritual, apostólica e missionária, nascida do coração de Dom Bosco, que encontra suas raízes na consagração batismal que nos identifica como filhas e filhos muito amados de Deus. A Família Salesiana (FS) é dom do Espírito à Igreja, em vista de uma missão comum que não se reduz à realização das mesmas tarefas, mas se dá no intercâmbio de dons que se reconhecem no carisma de cuidar dos jovens, nas várias etapas de sua idade evolutiva, inspirando-se na caridade de Cristo, Bom Pastor. Todos os membros da FS são filhos espirituais de Dom Bosco e transformam sua prática pedagógica em estilo de vida que torna visível e crível a identidade carismática, que perpassa o pensar, o agir e o relacionar-se dos diferentes Grupos.

Padre Felipe Bauzière – Existe um documento muito significativo sobre isso, que é a Carta de Identidade da Família Salesiana, na qual isso é muito bem explicado. Mas eu diria que são três coisas: o espírito salesiano, o carisma salesiano e a espiritualidade salesiana. Por trás de tudo tem a figura carismática de Dom Bosco, e também de Madre Mazzarello, mas quando eu falo em espiritualidade salesiana é a que vem de São Francisco de Sales mesmo, e insisto nisso porque creio que sem entender a influência de São Francisco de Sales não se compreende o que é a FS de Dom Bosco. É a espiritualidade do amor, antes de tudo, do Bom Pastor, do Sagrado Coração de Jesus Cristo, que Dom Bosco “traduziu” para a ação educativa e pastoral. O espírito salesiano é a forma de viver essa espiritualidade; é o espírito de família, o otimismo, a simplicidade, a humildade, tudo isso faz parte. E aí vem o carisma salesiano, onde minha referência é Dom Bosco: é a escolha por viver essa espiritualidade salesiana e esse espírito salesiano de uma determinada forma, no contexto educativo, junto aos jovens, com o Sistema Preventivo. É a escolha de um caminho.

Boletim Salesiano – Qual é, em sua opinião, a importância de expressar o carisma salesiano de tantas formas distintas?
Ir. Maria Américo – É próprio de Deus amar a diversidade e garantir, através do seu Espírito, a multiplicidade dos carismas como dons para confirmar a missão da Igreja. Nas origens, Dom Bosco uniu consagrados (religiosos e seculares), associações de leigos e envolveu pessoas de boa vontade em torno de seu projeto de educar e evangelizar os jovens do seu tempo. Madre Mazzarello procurava envolver jovens e educadoras leigas que atuavam na missão da primeira comunidade de Mornese, na sua importante tarefa de traduzir ao feminino o sistema preventivo de Dom Bosco. Assim, inspirando-se nos Fundadores, os diferentes Grupos da FS no Brasil garantem a identidade carismática buscando a unidade na missão, nas relações, na formação de seus membros, na vivência da espiritualidade salesiana, respeitando, porém, os elementos característicos de cada Grupo que, na troca de experiências, no espírito de colaboração e de partilha, tornam-se um rico patrimônio dessa numerosa família.

Pe. Felipe – Veja, existem na história da Igreja grandes Famílias espirituais, que são também, digamos assim, “escolas” espirituais. A Família Franciscana, a Família Dominicana, a Família Beneditina e tantas outras, e isso é uma riqueza muito grande. Gosto muito quando Santa Teresinha fala da Igreja como um diamante, que tem várias facetas para formar essa riqueza. Um segundo ponto é a pessoa de Dom Bosco, que era um poço de iniciativa e que sabia envolver as pessoas ao redor dele. Hoje se fala no movimento salesiano, porque vão além dos grupos que ele próprio fundou. Ele começou e depois os filhos e filhas espirituais dele foram criando outros grupos, segundo as necessidades e situações de cada local e de cada realidade. Dom Bosco tinha esse desejo de envolver o máximo de pessoas na salvação da juventude, e a FS dá continuidade a essa proposta.

Boletim Salesiano – Como é feita a animação e a inter-relação desses grupos no Brasil?
Ir. Maria Américo – A animação da FS no Brasil se realiza em nível nacional, inspetorial, regional e local, destacando-se a Consulta, que consiste em um encontro oficial de líderes e representantes dos vários Grupos da FS, para garantir a unidade carismática institucional. É um espaço privilegiado para o diálogo, a reflexão e a partilha em base a temáticas que possam promover a comunhão e assegurar o desenvolvimento e a atualidade do carisma salesiano. As Inspetorias ou regiões promovem iniciativas de animação também com encontros de formação, retiros, romarias, experiências missionárias e, em nível local, reuniões periódicas de Grupos específicos, para planejar e qualificar a ação pastoral e motivar seus membros à fidelidade criativa. De maneira geral, destacam-se momentos como o estudo da Estreia do Reitor-Mor (no início do ano) e o Dia da FS na ocasião da festa de Dom Bosco, em agosto. A animação da FS se faz, sobretudo, através do acompanhamento sistemático dos diferentes Grupos pelos delegados/as SDB e FMA. E, em nível nacional, as ações formativas e de animação da FS são coordenadas por um inspetor SDB, com a colaboração de uma inspetora FMA, que são os eferentes da FS junto à Rede Salesiana Brasil.

Pe. Felipe – O trabalho em conjunto acontece, em primeiro lugar, no território, ou seja, nas inspetorias, que, de maneira geral, têm um espírito de família que é muito bonito. Como em toda família, às vezes há algum desentendimento, claro, mas de maneira global existe algo muito bonito que é o intercâmbio desses grupos para realizar as ações conjuntas. A senhora é de São Paulo? Então, em São Paulo temos a Romaria da Família Salesiana, em agosto; temos também o FEST (Festival da Juventude Salesiana), que são grandes eventos “de família”, vamos chamar assim. E da mesma forma isso acontece nas outras regiões, nas outras inspetorias. Além disso, temos encontros e retiros que envolvem toda a FS em âmbito nacional ou regional, para refletir sobre a Estreia do Reitor-Mor, por exemplo. Mas eu diria que o mais importante é a vida partilhada, no dia a dia; é a proximidade nas ações locais.

Boletim Salesiano – Há algo mais que gostaria de destacar nesta matéria sobre a Família Salesiana no Brasil?
Ir. Maria Américo – Compartilho com a FS um pensamento que nos deixou nossa Madre-Geral, irmã Chiara Cazzuola, na ocasião de sua visita à Inspetoria FMA do Nordeste do Brasil: “A grande Família de Dom Bosco tem ainda muito a dizer ao mundo, e a comunhão, geradora de paz, é o caminho que faz resplandecer a beleza e a riqueza do carisma salesiano, hoje, onde estivermos”. A Família Salesiana está viva e se tornará cada vez mais forte e eficaz em sua missão se souber colher os sinais de Deus na realidade, discernir seus apelos e fazer escolhas que respondam aos desafios dos tempos atuais; se for para os jovens presença geradora de vida, trilhando, com eles, caminhos novos de humanização, interioridade e de paz.

Pe. Felipe – Eu gostaria de ressaltar mais uma vez a riqueza da FS, que vive a mesma espiritualidade e carisma, mas cada um segundo as suas condições e realidades. São Francisco de Sales, na Introdução à Vida Devota, afirma que cada um segundo a sua condição é chamado a viver a santidade. Nós todos, da FS, somos chamados a viver a santidade através do caminho de Dom Bosco, do caminho salesiano. É uma escolha, e não podemos ser membros da Família Salesiana, seja em qual grupo for, sem entender e viver a escolha por esse caminho.

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