Padre Wolfgang Gruen, SDB (1927-2024), fazia parte da chamada “segunda geração" de salesianos: aqueles que, embora não tenham conhecido Dom Bosco, conviveram com salesianos da primeira geração, que, por sua vez, tiveram contato direto com o santo fundador. Doutor honoris causa em Ciências Teológicas e Bíblicas pela Università Pontifícia Salesiana (UPS) de Roma e professor aposentado de Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), padre Gruen era também um grande especialista na história da presença salesiana no Brasil. Ao conceder esta entrevista ao Boletim Salesiano, em 2013, ele mesclou seu conhecimento histórico à vivência salesiana para construir uma rica análise da presença dos Salesianos de Dom Bosco em nosso país.
Em 1877, o bispo doRio de Janeiro, dom Pedro Maria de Lacerda, pediu a Dom Bosco que mandassesalesianos à sua diocese, para começar um trabalho com jovens necessitados deamparo. Dom Bosco só pôde atender ao pedido em 1883, quando os primeirossalesianos se estabeleceram em Niterói, RJ.
O cenário que encontraram era desafiador. O país já não aguentava o sistema escravagista: era desumano e economicamente desvantajoso. Em 1871, a “Lei do Ventre Livre” teoricamente era um bom começo, pois parecia estancar o contínuo fluxo de novos escravos. Na realidade, criou outro tipo de problemas para esses “moleques”, como eram chamados, que agora ficavam sem amparo legal e sem trabalho. Em 1883, os primeiros beneficiados pela lei tinham 12 anos – a idade dos “biricchini” de Dom Bosco. Para os salesianos recém-chegados, não havia dúvida: era preciso arregaçar as mangas e começar a trabalhar imediatamente.
Recepção brasileira
A grande maioria da população acolheu os salesianos de braços abertos, dando-lhes ajuda e estímulo. A maioria: de fato, no Brasil como na Itália da época, havia também um forte movimento de oposição à presença desses padres. Já no reinado de D. Pedro II, os ventos anticlericais eram fortes, e continuaram ainda mais agressivos na Primeira República. De um lado, a romanização da Igreja tomava ares decididamente polêmicos e radicais; do outro lado, com a ajuda da maçonaria e de missionários protestantes, o anticlericalismo levantava a bandeira das liberdades cívicas, tão do gosto do iluminismo.
A comunidade salesiana, à imitação de Dom Bosco, não se deixou envolver nessa briga. Claro que estavam com o Papa, com a Igreja; mas, sem polêmicas. O seu “negócio” era tirar essa meninada da rua, do abandono, do vício. Começaram com o Oratório Festivo, pupila dos olhos de Dom Bosco: muita algazarra, muita alegria e horas de lazer, boas pitadas de “catecismo” e, acima de tudo, carinho educativo para com essa garotada que tanto precisava disso. Ainda não era a solução, mas encaminhava para algo mais duradouro.
Padrão salesiano de educar
De fato, no Brasil, como nas origens da obra de Dom Bosco, os salesianos logo tiveram a preocupação de proporcionar a esses jovens um jeito de eles mesmos prepararem seu futuro: boas escolas profissionais e agrícolas, onde também teriam formação cívica, moral, religiosa, sempre naquele clima de amizade que devia ser a característica da educação salesiana. E a oposição, até pela imprensa, a esses estrangeiros carolas? “Deixa prá lá: nós respondemos com o nosso trabalho e a alegria com que o assumimos”. A estratégia funcionou. De fato, a vinda também das Filhas de Maria Auxiliadora, a multiplicação dos oratórios e escolas profissionais, os salesianos cooperadores e amigos da obra, as vocações para manter vivo esse projeto – tudo isso, com a bênção de Deus, levou adiante e solidificou essa obra.
Para muitos milhares de pessoas, a importância da chegada dos salesianos ao Brasil foi incalculável: traçou o rumo de sua vida e o de uma multidão de outras pessoas que se beneficiaram com a sua presença.
“Ciências da Educação”
No final do século XIX, principalmente na Europa, já circulavam os primeiros filões de uma pedagogia científica, base das que hoje são chamadas “Ciências da Educação”. Dom Bosco não era um teórico; mas seu amor à causa dos jovens abandonados o levava a repensar e reavaliar continuamente sua prática. Desse modo, criou um estilo pastoral-educativo que continua em construção, o Sistema Preventivo. Fazia questão de formar seus auxiliares nessa vivência educativa. Quando organizava equipes missionárias, para difundir em outras partes do mundo seu zelo pela educação e recuperação de jovens, ele fazia questão de enviar os salesianos mais qualificados.
Foi o que aconteceu com os primeiros missionários que vieram ao Brasil. A contribuição que eles deram ao país foi, primeiro, a implantação desse admirável estilo de educação familiar, simples, amiga, permeada de religião e de alegria. Além das disciplinas previstas, os meninos aprendiam a tocar um instrumento, tinham seu coral e sua banda de música, encenavam peças de teatro, preparavam as “sessões acadêmicas”, com cantos, discursos, recitação de poesias, praticavam toda espécie de esporte, com times e campeonatos. Mais tarde, teriam sua enfermaria; jornalzinho colegial; excursões e passeios. Quando é que aqueles “moleques” teriam sonhado com tudo aquilo?
Reverberação
Conosco, aconteceu um fenômeno imprevisto. Os salesianos sabiam que foram chamados por Deus para atuar, preferencialmente, em ambientes populares, pobres. Essa população mais sacrificada não tardou a perceber que também os seus filhos precisavam, além de cursos profissionalizantes, de um bom ensino fundamental, para subirem na vida. Os salesianos abriram colégios, em geral também com seção de internato, para responder a essa necessidade.
Com o passar do tempo, o colégio, localizado em bairro periférico, pobre, vitalizou de tal maneira o bairro, que a seu redor surgiu toda uma região de classe média, chegando a mudar o perfil de boa parte da clientela do colégio. Foi o caso do Santa Rosa, de Niterói: durante muito tempo, enquanto foi possível, conservou também sua “4ª divisão”, dos aprendizes, em suas excelentes Escolas Profissionais. Em casos como esse, os educadores faziam questão de sensibilizar também os estudantes para a causa dos colegas mais carentes e suas famílias.
Finalmente, o governo, como é sua obrigação, criou os seus cursos profissionalizantes, bem organizados e equipados. Mais uma vez, porém, os salesianos acudiram a uma situação que tinha ficado desprotegida: jovens que já precisariam ser arrimo de família, mas não tinham como entrar no mercado de trabalho. Em 1973, em Belo Horizonte, foram então criados os CESAMs, hoje presentes em várias cidades do Brasil, que proporcionam estudo, aprendizagem profissional básica e formação humana e cívica, com estágio e encaminhamento para o trabalho.
Faltava o setor de urgência e emergência educativa. De vários anos para cá, os salesianos têm-se dedicado com especial afinco a adolescentes e jovens em situação de risco social -- também nisso retomando uma das grandes preocupações de Dom Bosco. O bonito é que, em todas essas atividades, podemos contar, como Dom Bosco, com o trabalho eficiente e generoso de cooperadores salesianos e voluntários leigos.
Destaque
Acho importante sublinhar uma contribuição dos salesianos do Brasil para além de suas fronteiras. Desde o Concílio Vaticano II, vem-se insistindo na Igreja na necessidade de inculturar nossa pastoral. Um país multicultural como o Brasil acaba sendo uma incrível escola de diálogo respeitoso com as culturas. Sem nos darmos conta, a nossa prática propaga-se também por outros países, assim como nós aprendemos de práticas inspiradoras que outros nos partilham.
É uma das tarefas mais fecundas do Boletim Salesiano, hoje publicado em muitas línguas e nações. É também o que se constata em nossos Capítulos Gerais. Pessoalmente, vivi essa experiência marcante em nosso Capítulo Geral Especial, realizado em Roma, em 1971-1972. Como se faz em toda a América Latina e Caribe, estamos acostumados a não só partilhar com grupos populares de jovens e adultos o que tivemos o privilégio de aprender, mas também a aprender nesses grupos o muito que eles podem nos ensinar (como diria Paulo Freire). Mais depressa do que pensávamos, esse fraterno espírito de partilha se espalhou e multiplicou entre capitulares de diversas partes do mundo.
Na noite de 18 de dezembro de 1859, no Oratório de São Francisco de Sales, Dom Bosco reuniu em seu aposento alguns jovens visando “promover e preservar o espírito de verdadeira caridade exigido no trabalho dos oratórios pela juventude abandonada e em perigo”, conforme escreveu o padre Vittorio Alasonatti, na ata daquela reunião.
Com Dom Bosco, foram 17 os jovens que lançaram as bases daquela que se instituiu como “Sociedade de São Francisco de Sales”, hoje conhecida como a Congregação dos Salesianos de Dom Bosco.
Foram várias as tentativas de Dom Bosco para fundar essa Sociedade, com a qual pretendia garantir a continuidade do seu trabalho no oratório, que crescia dia a dia. Apesar das dificuldades, persistiu em sua ideia. Na verdade, ele percebeu que todo o bem que fazia pelos seus meninos arriscava de se perder devido às más influências vindas de fora; e foram muitos os passos dados para estruturar melhor sua obra. Decidiu construir suas próprias oficinas de ensino, inaugurando as duas primeiras em 1853. Em 1856, já eram 150 os alunos acolhidos, quatro as oficinas, uma tipografia, quatro as salas de latim, 10 os sacerdotes, além de 500 alunos externos.
Após a fundação, em 2 de fevereiro de 1860 a Congregação acolheu o primeiro salesiano coadjutor (salesiano irmão), outra feliz intuição de Dom Bosco, que quis envolver muitas pessoas com diversas aptidões e perfis no serviço aos jovens.
A Congregação continuou a crescer e, a partir de 1875, também a espalhar-se pelos cinco continentes com um claro carisma educativo para as crianças e jovens mais desfavorecidos e um espírito missionário evangelizador sem limites geográficos. Em 1863, já eram 39 os ‘salesianos’, sendo em 1888, à morte de Dom Bosco, 768.
Os Salesianos de Dom Bosco hoje
Em 31 de dezembro de 2025, o número total de Salesianos de Dom Bosco professos era de 13.444, aos quais se somam 114 bispos, totalizando 13.558 SDB. A distribuição por estado de vida indica que os presbíteros constituem a maioria, com 9.116 membros (67,81%), seguidos pelos clérigos (2.654; 19,74%), coadjutores (1.276; 9,49%), noviços (384; 2,86%) e diáconos permanentes (14; 0,10%).
Merece atenção especial o dado relativo às novas gerações. Os 384 noviços presentes ao final de 2025 representam o futuro da Congregação. Entre os que iniciaram o noviciado ao longo do ano, apenas 18 desistiram, enquanto quatro noviços de 2024 tiveram o noviciado prorrogado, indicando um bom nível de perseverança inicial. A formação inicial inclui ainda 423 pré-noviços, 939 pós-noviços, 492 tirocinantes, 757 estudantes de Teologia e 373 universitários.
O número total de Casas Salesianas chega a 1.850, das quais 1.598 são canonicamente erigidas, com Comunidade Salesiana residente, e 119 não canonicamente erigidas, embora contem com presença salesiana.
A distribuição geográfica vê a Índia em primeiro lugar, com 2.742 professos, seguida pela Itália (1.704), Polônia (755), Espanha (725) e Brasil (566). Juntos, esses cinco países concentram mais de 45% de toda a Congregação.
Salesianos no Brasil
Os Salesianos de Dom Bosco no Brasil estão divididos em seis inspetorias, unidas em uma confederação, a Cisbrasil. São elas:
Inspetoria Salesiana São Domingos Sávio, com sede em Manaus, AM, congrega as presenças salesianas no Pará, Rondônia e Amazonas, incluindo as missões entre os povos indígenas do Alto Rio Negro.
Inspetoria Salesiana São Luiz Gonzaga, com sede em Recife, PE, que representa as presenças no Nordeste do Brasil, mais precisamente nos estados de: Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Missão Salesiana de Mato Grosso, com sede em Campo Grande, MS, contempla os setores de escolas, obras sociais, instituições de ensino superior, paróquias e missões indígenas em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e região do Oeste paulista.
Inspetoria São João Bosco, com sede em Belo Horizonte, MG, reúne as obras salesianas do Distrito Federal e estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e Tocantins.
Inspetoria de Nossa Senhora Auxiliadora, com sede em São Paulo, SP, contempla a ação dos Salesianos de Dom Bosco na maior parte do Estado de São Paulo, com 16 obras sociais, 11 escolas, 4 campi universitários, 51 projetos pastorais e 12 paróquias.
Inspetoria Salesiana São Pio X, com sede em Porto Alegre, RS, representa os salesianos presentes em toda a Região Sul do Brasil, com obras em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.