A história das Irmãs de Jesus Adolescente, primeiro grupo da Família Salesiana a ser criado no Brasil, é em si uma expressão de como a proposta educativa e evangelizadora salesiana ganha contornos diferenciados em cada realidade, mas sem perder a sua essência.
Em 1938, quando a congregação foi fundada em Campo Grande, o Mato Grosso do Sul ainda fazia parte do extenso Estado do Mato Grosso. A Diocese de Corumbá se estendia por toda a região, com cerca de 400.000 quilômetros quadrados, e o salesiano dom Vicente Priante, que exercia ali o episcopado desde 1933, lidava com a dificuldade em atender uma região tão vasta.
“A Diocese de Corumbá era a maior do mundo, em extensão de terra. E o transporte por aqui não era fácil: para vir de Corumbá a Campo Grande não tinha estradas, o que nós tínhamos de locomoção era o trem de ferro. E depois, o bispo tinha que achar jeito de se locomover pelo interior, fosse de carroça, lombo de burro, o que tivesse. O atendimento pastoral era muito difícil e havia pouquíssimos sacerdotes, a maioria estrangeiros”, conta a Irmã Neiva Maria Mattos, Madre-Geral das Irmãs de Jesus Adolescente.
Excluídas da vida religiosa
Outra preocupação de dom Vicente era com o acesso à vida religiosa: embora percebesse o grande número de vocações locais, as congregações existentes na época não as aceitavam. Conforme destaca a Madre, “as congregações religiosas tinham uma lista de exigências que não cabia para essa região. Por exemplo: só era aceito no aspirantado, masculino ou feminino, quem tivesse os pais casados no religioso. Em uma região em que o padre vinha a cada dois anos para fazer a desobriga, isso era uma dificuldade muito grande! Também era preciso ter escolarização, e naquela época escola formal aqui era coisa de gente rica. Muitas congregações não aceitavam os afrodescendentes e os indígenas, que era e é a maioria do nosso povo”.
Outras dificuldades, estas para as vocações femininas, eram a exigência de um dote em dinheiro, de um enxoval completo e, especialmente, o limite de idade, o que fazia com que muitas meninas que sentiam o chamado à consagração, mas não eram aceitas na vida religiosa, chegassem à maturidade sem se casar. “Dom Vicente rezou por dez anos até chegar à conclusão de que ele precisava fundar uma congregação religiosa com regras mais acessíveis para acolher essas mulheres, e foi assim que nasceram as Irmãs de Jesus Adolescente”, enfatiza Irmã Neiva.
Uma novidade “do tamanho do mundo”
Dom Vicente idealizou uma congregação religiosa com exigências mais brandas e adaptadas à realidade. Além das jovens vocacionadas, estabeleceu que as Irmãs de Jesus Adolescente poderiam aceitar também mulheres adultas, solteiras ou viúvas. E havia também o trabalho pastoral dessas consagradas, que deveriam ir aos lugares mais distantes.
“Desde o início, nossas irmãs eram autorizadas a ser párocas, ou seja: onde não houvesse padre, podíamos assumir a paróquia. Tudo isso era uma novidade do tamanho do mundo em 1938. Mas quando dom Vicente escreve para o Vaticano, explicando tudo isso, a Santa Sé autoriza sem questionar. A Igreja reconhecia essa necessidade, mas penso que, como se diz na linguagem de hoje, não conseguia ‘furar a bolha’ das instituições já existentes”, reflete Irmã Neiva.
Uma história de acolhida e serviço
A Congregação das Irmãs de Jesus Adolescente, de direito diocesano (subordinada ao bispo), foi criada em 8 de dezembro de 1938 e as primeiras sete noviças professaram já em 1939. A diversidade do trabalho missionário se apresentou com a abertura de uma pequena escola, de um instituto para cuidar de idosos e com a pastoral em paróquias, com atenção especial às comunidades mais distantes e desassistidas. O desenvolvimento da nova Congregação, entretanto, sofreu um grave revés com a morte prematura de dom Vicente Priante, em 1944. O novo bispo, dom Orlando Chaves, confiou a direção do instituto às Filhas de Maria Auxiliadora e, até 1967, as Irmãs de Jesus Adolescente tiveram irmãs FMA como Superioras-Gerais.
O processo de retorno às raízes e reorganização da Congregação levou vários anos, com a realização de um Capítulo Geral Especial em 1975 que aprovou novas Constituições, aperfeiçoadas em 1982. A pertença à Família Salesiana também demandou um longo discernimento, que culminou com o reconhecimento oficial em 1º de janeiro de 1989, firmado pelo padre Egídio Viganò, Reitor-Mor dos Salesianos.
Educação e paróquias
Atualmente, as Irmãs de Jesus Adolescente estão presentes em Mato Grosso do Sul, Amazonas e Rio Grande do Norte. Mantêm o trabalho pastoral nas dioceses de Campo Grande, MS; Mossoró, RN e Presidente Figueiredo, AM, com foco na Celebração da Palavra nas comunidades, Catequese, Cáritas e Pastorais Sociais. Quanto à educação, as Irmãs fizeram a opção de não ter colégios particulares confessionais, trabalhando em escolas públicas ou conveniadas.
Um exemplo é a Escola Estadual Coração de Maria, em Campo Grande, que funciona no prédio cedido pelo Instituto de Jesus Adolescente e tem a direção também indicada pelo Instituto. A própria Irmã Neiva foi professora e diretora da Escola por quase 30 anos e fala com orgulho da instituição, agora dirigida por uma educadora leiga. “A gente mantém uma educação com estilo salesiano dentro da escola pública, onde estão os que não podem pagar a escola particular. Essa é uma escola de referência, que no Mato Grosso do Sul está entre as que têm o maior IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, principal índice de qualidade da educação básica no Brasil)”.
Vocações e Família Salesiana
Como todas as congregações religiosas, as Irmãs de Jesus Adolescente também vivem a dificuldade de novas vocações. Porém, permanecem firmes no propósito fundacional de acolher vocações maduras, que não seriam aceitas em outros institutos. Têm atualmente uma noviça com 52 anos de idade e uma postulante que já completou 50. Mas Irmã Neiva alerta que esta não é uma escolha pessoal: “O que nos faz acolher não é só porque a pessoa quer (ser religiosa consagrada) ou porque eu quero. No caso da noviça, ela pertencia a uma paróquia salesiana, veio indicada pelo padre e nós analisamos junto com o pároco e chegamos à conclusão de que ela tem grande possibilidade de viver o nosso carisma, que era uma pessoa que não pôde realizar antes a vocação”.
E quanto às mais jovens? O que leva uma jovem a se interessar pela Congregação? A resposta de Irmã Neiva vem com entusiasmo: “Ah, o interesse é pelo trabalho missionário e por algo que faz parte do nosso ser, que é a alegria. A Irmã de Jesus Adolescente dá gargalhadas, e não apenas sorri discretamente; a gente fala com as mãos, abre os braços, brinca, como todo o povo do Mato Grosso, e isso cria uma intimidade, digamos assim”.
A alegria também é, segundo a Madre, uma das características que une as Irmãs de Jesus Adolescente aos outros ramos da Família Salesiana em Campo Grande. Após um período de certo afastamento, a Congregação tem procurado participar dos encontros da FS nos vários níveis, inclusive internacional, além das atividades conjuntas nas paróquias.
“Nós nos reconhecemos e nos identificamos como Família Salesiana em todos os lugares em que estamos, seja paróquia, escola etc. E nesses últimos anos vemos que há um movimento muito grande dos salesianos de acolher a Família Salesiana. Há paróquias que têm praticamente todos os grupos da FS que existem no Brasil, trabalhando juntos, o que é muito bonito”, finaliza Irmã Neiva.
Para saber mais
No site do Instituto Jesus Adolescente é possível ter mais informações sobre o trabalho realizado pelas Irmãs: https://institutojesusadolescente.com.br/ As Irmãs de Jesus Adolescente também estão presentes nas redes sociais Instagram com o perfil @jesusadolescenteoficial e Facebook.