Amado jovem, como sempre, nesta coluna dedicada à juventude, procuramos dialogar sobre assuntos reais e cotidianos, que fazem parte do mundo juvenil. Assim, não podemos deixar também de abordar o tema da política. Por qual razão? Justamente porque estamos nos aproximando das eleições. Mas, adianto: não vamos conversar sobre política partidária.
Um pouco de história
Em primeiro lugar, vamos recordar um pouco da história? A concepção de política começa a ser pensada na Grécia Antiga, por Aristóteles. Para ele, a política é a ciência e a arte que convergem para a organização da pólis, que significa “cidade”, em busca do bem comum. Portanto, a “política” se refere a algo que é relativo à cidade, algo público ou próprio do cidadão. Ao longo dos anos, essa arte foi se aperfeiçoando, se ajustando, e o foco passou a estar diretamente ligado às realidades concretas e cotidianas da sociedade.
Desse modo, política, como sabemos, deixou de ser a arte apenas da organização dos ambientes nos quais vivemos para se tornar a arte de toda a nossa vida. Ou seja, a construção da forma na qual vivemos e na qual queremos viver. Mas também sabemos que, em alguns contextos, ela virou espaço de guerra e exclusão do outro, até mesmo de membros de nossas famílias.
Por isso, jovem, é essencial que falemos dessa temática. Mas com consciência e respeito. É por isso que eu gostaria de trazer para este espaço um autor que me inspira muito e que, além disso, pode nos oferecer grandes ensinamentos. Estou falando de Gabriel García Márquez, colombiano, portanto, latino-americano como nós, e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura.
O partido político de Deus
Na sua grande obra, intitulada Cem Anos de Solidão, é retratada um pouco da política colombiana. Notamos que ela estava dividida entre extremos. Então, nesse contexto, uma das personagens, Petra Cotes, procura o padre Antônio e pede a ele uma ajuda para fazer uma rifa, e o padre responde: “Isso depende, minha filha, só se você pertencer ao partido político de Deus”.
Ou seja, essa é, acima de qualquer posição política, a nossa opção de vida. E essa opção não pode ser esquecida. Somos do partido de Deus. E de um Deus que é amor e ama a cada um de nós incondicionalmente. Cabe destacar que a palavra “incondicional” quer nos fazer lembrar que não há condição alguma. Isto é, para Deus derramar seu amor sobre cada um de nós, não há predeterminações.
Tal cena nos faz lembrar, certamente, o próprio Dom Bosco. Em uma das notas do livro Memórias do Oratório de São Francisco de Sales, podemos ler o seguinte: “Quem conhece a vida de Dom Bosco sabe que ele também interveio em assuntos relacionados com a política, mas não era política de partido, da qual ele disse: ‘Jamais nenhum partido me fará seu’. Tratava-se da grande política, a que visava aos interesses unidos do Estado e da Igreja; e em tudo e por tudo agiu como um sacerdote”. Seu coração estava voltado para a boa vivência do cristianismo.
“Tudo por amor e nada por força”
Esse deve ser nosso exemplo: em tudo e por tudo, agir como membros do partido de Deus. Como bons cristãos. Isso requer de nós empenho no respeito às diversidades e pluralidades de opiniões. Sabemos que nem sempre é fácil, mas precisamos recorrer a outro grande exemplo: São Francisco de Sales.
Ele, que também viveu os seus desafios, que por muitas vezes foram motivados pelas políticas e pelas disputas religiosas, não deixou de viver e, desse modo, nos ensinar uma grande fórmula para a vida no que diz respeito ao relacionamento com as outras pessoas: doçura e caridade. É dele a máxima “tudo por amor e nada por força”.
O amor não pode, jamais, sair do centro de nossa vida. Como discípulos e discípulas de Jesus, que nos deixou o grande mandamento do amor, somos os primeiros responsáveis por viver o amor entre nós. Assim, nesse tempo de disputas acirradas, no qual a dignidade humana pode ser esquecida, somos convidados a dar o primeiro passo em direção ao diálogo, ao respeito e à fraternidade.
Infelizmente, muitas situações discrepantes com o que cremos aconteceram nas últimas eleições. Famílias inteiras destruídas, amizades desfeitas e rupturas que ficaram conservadas até hoje. E é por essa razão que precisamos ter esse diálogo hoje. Somos jovens da pólis, temos direito e dever ao voto consciente, mas sem nos esquecermos de que somos cristãos.
A política do Pai-Nosso
Ser cristão requer de nós uma postura equilibrada em todas as nossas relações. Não deixe a semente da discórdia ser plantada em seu coração. Na política moderna, falamos do diálogo. Diálogo não acontece no individualismo, mas na troca de experiências, na partilha de história e na percepção da beleza das diversas formas de encarar a vida.
Que a política do Pai-Nosso, como dizia Dom Bosco, seja a nossa inspiração. Quando iniciamos essa bela e profunda oração ensinada por Jesus, a primeira constatação que percebemos é a de que todos e cada um de nós chama a Deus de Pai. O que nos faz recordar que somos e seremos, sempre, todos, irmãos e irmãs.
Que você possa ser um apóstolo da doçura e da caridade, não somente em tempos de desafios, mas na vivência cotidiana de sua vida. Que Deus continue inspirando-o na prática e na busca pelo bem comum.