A Inteligência Artificial já está presente nas salas de aula, nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos serviços de saúde, na comunicação, nas decisões econômicas e nas formas como buscamos e produzimos conhecimento. Mais do que uma novidade técnica, ela representa uma transformação cultural que modifica nossas relações, comportamentos e estruturas sociais.
Por isso, a Igreja não pode olhar para a Inteligência Artificial apenas como uma ferramenta que precisa ser utilizada eticamente. É necessário perguntar também: que sociedade estamos construindo com ela? Quem decide seus rumos? Quem controla os dados, os recursos computacionais e os conhecimentos necessários para desenvolvê-la? Quem se beneficia de seus resultados e quem permanece invisível em seus processos?
A Carta Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, oferece uma contribuição importante para esse discernimento. Ao retomar a tradição da Doutrina Social da Igreja, recorda que seus princípios são critérios úteis para iluminar as “coisas novas” do nosso tempo e orientar a nossa ação diante dos dilemas provocados pela Inteligência Artificial. Entre eles, destacam-se o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social (MH, 109).
O bem comum
É necessário superar a ideia de que a Inteligência Artificial é apenas uma questão de inovação, competitividade ou lucro. O desenvolvimento tecnológico não pode ser considerado bom simplesmente porque é tecnicamente possível ou economicamente rentável; é preciso perguntar se contribui para uma vida mais digna para todos.
Quando poucos sujeitos concentram dados, capital computacional, infraestrutura e capacidade de definir padrões tecnológicos, produz-se uma nova assimetria econômica, epistêmica e política. Promover o bem comum significa, portanto, questionar os novos monopólios tecnológicos e orientar a inovação para a dignidade humana e a construção de uma sociedade mais justa.
A destinação universal dos bens
Isso nos recorda que os frutos do desenvolvimento humano não podem transformar-se em privilégio de poucos. Dados, conhecimento, infraestrutura digital e capacidade tecnológica constituem recursos estratégicos para a sociedade contemporânea e possuem também uma dimensão social.
Se a Inteligência Artificial pode ampliar as possibilidades de aprendizagem, acesso à informação, saúde, trabalho e participação, é necessário garantir que esses benefícios não sejam restritos a quem possui maior poder econômico e tecnológico. O acesso às tecnologias deve estar acompanhado de formação para utilizá-las de maneira crítica, criativa e responsável.
A subsidiariedade
Outra questão fundamental é a subsidiariedade: quem participa das decisões sobre os rumos da Inteligência Artificial? Famílias, educadores, trabalhadores, estudantes, pesquisadores e comunidades precisam ter voz na definição dos critérios que orientam esses sistemas capazes de interferir em suas vidas.
Subsidiariedade significa proteger a capacidade das pessoas e das comunidades de participar, questionar e corrigir os caminhos da tecnologia. Não basta uma intervenção posterior, quando as regras já foram estabelecidas por grandes empresas ou centros tecnológicos; é necessário criar espaços democráticos de participação desde a sua projeção.
A solidariedade
É a solidariedade que nos permite enxergar aqueles que permanecem invisíveis por trás da aparente autonomia dos sistemas de IA. Os modelos dependem de pessoas que coletam, classificam, filtram e moderam dados, muitas vezes em condições precárias. Reconhecer esse trabalho invisível significa colocar as pessoas no centro da discussão tecnológica. Afinal uma tecnologia preocupada com a dimensão humana não pode ser construída sobre a invisibilidade ou a exploração de outros seres humanos.
A justiça social
Quem pode desenvolver e treinar os grandes modelos de IA? Quem possui os recursos para definir seus parâmetros? Quem produz conhecimento e quem apenas fornece dados? Quem estabelece as normas que serão aplicadas globalmente? Essas questões mostram que a desigualdade digital não se limita ao acesso aos dispositivos ou à conexão: envolve também a capacidade de produzir tecnologia, controlar dados, estabelecer padrões e participar das decisões que definirão o futuro.
Essas questões podem parecer complexas e distantes demais da maioria dos cidadãos, porém, é fundamental que sejam trazidas à tona, especialmente nos ambientes educativos, espaços em que tradicionalmente temos a possibilidade de desenvolver o pensamento crítico e suscitar a participação cidadã.
A contribuição da Igreja sob o pontificado de Leão XIV para a reflexão crítica acerca das questões relativas ao uso e desenvolvimento da Inteligência Artificial é fantástica e precisa chegar aos bancos de escola, aos centros de pesquisa e às rodas de conversa. Essa é uma forma de iluminar a sociedade atual a partir do Evangelho e da tradição da Igreja, de modo que a dignidade humana seja respeitada e defendida por todos.