Em 1871, Dom Bosco estava em Lanzo para os exercícios espirituais, quando recebeu um telegrama confidencial do Governador de Turim, para que fosse a Florença para ouvi-lo sobre as nomeações de bispos para as dioceses vacantes do Piemonte. O assunto já se tratava há vários meses, e Dom Bosco teve que trabalhar e escrever muito por causa disso.
O Papa Pio IX mandou-o expressamente tratar do assunto e, também, preparar-lhe uma lista de candidatos considerados oportunos para a nomeação. E lá foi Dom Bosco, em companhia do padre Cerruti.
O Governador ficou supercontente pela sua gentileza amiga e quis apresentá-lo à sua esposa. Dom Bosco manifestou também a ela o motivo pelo qual estava lá. Ela igualmente se disse honrada pela gentil comunicação, e se uniu ao marido para louvar o empreendimento ao qual Dom Bosco tinha se dedicado.
Ao descer das escadas, ocorreu um episódio que nos agrada expor aqui mediante a declaração feita pelo próprio padre Cerruti no Processo Informativo para a Causa de Beatificação e Canonização: “A humildade de Dom Bosco não se mostrava menor nos elogios que recebia com frequência. Poder-se-ia dizer que esses elogios não se referiam a ele, tão grandes eram a calma e a indiferença que mostrava. Às vezes, porém, se comovia, e eu o vi inclusive chorar. Recordo que em setembro, quando o acompanhei junto ao Governador de Turim, ao descer das escadas foi-lhe ao encontro a mulher do porteiro para pediu-lhe a bênção, e exclamou:
– Ó meu Deus, parece-me ver Nosso Senhor!
Dom Bosco corou, vieram-lhe as lágrimas aos olhos, e disse:
– Reze por mim e pela minha pobre alma!”
Sabemos, pelas Memórias Biográficas, que Dom Bosco realmente sugeriu nomes de bispos para as Dioceses vacantes. Assim, a sagacidade diplomática do Santo tinha tutelado a independência do Papa e ajudado a salvação de muitas almas. O Papa lhe disse:
– Querido Dom Bosco, o senhor pediu e obteve muitas vezes honras e encargos distintos para os outros: o que pede para o senhor?
– Santo Padre, que eu siga recebendo sua benevolência ao pobre Dom Bosco!
– O senhor a tem por completo! E o que mais?
– Nada mais além de sua benevolência!
Mais tarde, já de volta a Turim, Dom Bosco disse claramente:
– O Papa me disse: faça a lista e depois me apresente! E o que Dom Bosco fez está bem feito.
E Dom Bosco concluiu com humildade:
– Não sei se mais adiante haverá outros de nossa Congregação, que se encontrarão em circunstância parecida para eleger a tantos bispos, como aconteceu este ano...
Os irmãos, que o escutavam silenciosos, ficaram surpresos que não acrescentara ao período final o complemente especificativo “a mim”. Mas não deixaram de admirar a causa da omissão, que brilhava em sua personalidade humilde e reservada.
Contou depois ao padre Cerruti os trabalhos e desgostos que tinha experimentado naquela empresa:
– Eu o fiz para obedecer ao Papa, para o bem da Igreja! Porém, como me sinto mais tranquilo com meus filhos!