Nos artigos anteriores refleti sobre o Projeto Pessoal de Vida (PPV) à luz de duas questões que considero importantes, sobretudo para os jovens. O primeiro dizia respeito às relações na era digital, cujo centro de impacto hoje é a Inteligência Artificial. No segundo, apresentei algumas questões sobre uma nova compreensão do ser humano, não como o centro do universo, mas como um ser que cresce em relação em rede.
Neste terceiro artigo reflito sobre o PPV a partir dos processos de comunhão entre as pessoas (cf. Sbardelotto Moisés, Por um novo humanismo digital, p. 264), como sonhou o Papa Francisco. É fundamental que a comunhão se expresse no PPV na diversidade e nunca em atitudes de fechamento e intolerância. Trata-se do saber conviver e viver em harmonia com o que é diverso.
Saber integrar o humano
Num cenário de fragmentação e autorreferencialidade, imaginar o diferente como algo a ser agregado ao PPV parece um desafio intransponível. No entanto, é necessário saber conviver sem excluir ninguém. Para isto, o ambiente digital pode favorecer, em rede, a integração das diversidades. Mas isso só será possível quando todas as pessoas tiverem acesso aos meios digitais, especialmente os mais pobres. Numa pesquisa feita pelo Setor Juventudes da CNBB se constatou que, para muitos jovens, o medo de não estar conectado pode ser sinal de exclusão, inclusive de não reconhecimento de sua existência, tornando-os, assim, os invisíveis, os indesejados, os descartados (CNBB, Evangelização da juventude, 2007, n. 34).
A realidade não é global e muito menos uniforme. Convivemos num mundo plural, com várias aldeias globais e culturas digitais. Todas têm suas interfaces e seus interesses, por isso, é importante e saudável saber integrar no PPV as realidades diferentes, modos de conceber a vida, experiências espirituais, cenários sociais e culturais. Tudo isso precisa estar de forma harmônica na vida de cada pessoa.
Saber dialogar em rede
Eis aqui um desafio interessante que nos inquieta a pensar o PPV a partir da escuta e do diálogo construtivo. Quando nos referimos ao diálogo, queremos dizer que o outro é alguém com o qual a pessoa precisa saber escutar sem ter a pretensão de que a minha ideia é superior à do outro. É no diálogo, a partir da cultura do encontro, que iremos de fato concretizar uma cultura da “amizade social”, como bem refletiu o Papa Francisco na Fratelli Tutti, com referência ao diálogo inter-religioso: “O diálogo entre pessoas de diferentes religiões não se faz apenas por diplomacia, amabilidade ou tolerância. Como ensinaram os bispos da Índia... o diálogo estabelece amizade, paz, harmonia e partilha valores e experiências morais e espirituais em espírito de virtude e amor” (Papa Francisco, Fratelli Tutti, 2020, 271).
O diálogo em rede cresce a cada dia, a tal ponto de tornar-se a mais rápida forma de encontrar o outro. Tanto pode ser utilizado para aproximar, romper a bolha do isolamento e anonimato, como também para harmonizar as diferenças e promover formas de diálogo. No PPV é preciso incluir esta busca de harmonia das relações no âmbito da Inteligência Artificial.
Saber gerar processos de encontro
Papa Francisco convocava todos os homens e mulheres de boa vontade a unir os pedaços de um mundo em frangalhos (Papa Francisco, Fratelli Tutti, 10-11). O Papa denunciava os sinais de agressões, as diferentes ideologias, formas de egoísmo, perda do sentido social com defesa de interesses nacionais, os conflitos bélicos marcados pelo modelo cultural, o desprezo pela história, sem projeto que incluísse a todos, o descarte dos mais vulneráveis, os conflitos e medos, inseguranças e ameaças mútuas.
Evidentemente, ao programar o PPV, a pessoa não pode prescindir desse mundo que grita por paz, porque na história pessoal também há conflitos, interesses internos que condicionam as escolhas, medos e inseguranças, individualismo. Tudo isso cria dilacerações, feridas que precisam ser curadas a partir do discernimento, da aceitação das diferenças e da abertura da mente, da vontade e do coração ao outro que não é um lobo, uma ameaça, mas alguém que pode gerar processos de encontro e renovação da vida e das escolhas.
De forma profética, o Papa Francisco denunciava: “Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses” (Papa Francisco, Fratelli Tutti, 2020, 113).
Voltemos a promover o bem, para nós mesmos e para toda a humanidade, e assim caminharemos juntos para um crescimento genuíno e integral. Cada sociedade precisa garantir a transmissão dos valores; caso contrário, transmitem-se o egoísmo, a violência, a corrupção nas suas diversas formas, a indiferença e, em última análise, uma vida fechada a toda a transcendência e entrincheirada nos interesses individuais.