Ao falar de juventudes e mundo do trabalho, precisamos pensar inicialmente: Por que “juventudes” e não “juventude”, no singular? E a resposta, apesar de parecer simples, envolve questões mais complexas. O conceito é social, pois parte das diferentes realidades sociais. Se temos diferentes realidades sociais, temos jovens vivendo nas mais diversas realidades e, consequentemente, com diferentes oportunidades. Sendo assim, o conceito deve ser amplo, pois não existe uma só forma de ser jovem, reconhecendo, assim, as desigualdades sociais.
A relação das juventudes com o trabalho está inteiramente ligada ao motivo de o conceito estar no plural. Pois não se pode definir, de forma generalizada, como é atualmente a relação das juventudes com o trabalho, já que a forma como o jovem vê o mundo do trabalho depende das oportunidades às quais ele tem acesso, das possibilidades que enxerga para a vida, que são diretamente influenciadas pelo contexto em que vive, fazendo com que tenha diferentes expectativas, atravessadas por classe social, acesso à educação, condições familiares e oportunidades reais.
O papel central do trabalho na identidade
Considerando que o trabalho tem um dos papéis centrais na construção da identidade do sujeito, é possível afirmar que a definição de trabalho, mesmo estando em constante mudança, foi e ainda é responsável pela formação e transformação da humanidade ao longo do tempo. Dessa forma, o trabalho é tido como forma de promover dignidade humana, inclusão social, emancipação e autonomia do indivíduo.
Para o jovem, não é diferente. Por mais que as expectativas sejam diversas e estejam em constante mudança, influenciadas por diversos fatores, fica claro como, de modo geral, o trabalho ainda é visto como possibilidade de mudança de realidade e reconhecimento social, produzindo um otimismo em relação ao futuro. Contudo, infelizmente, existe um grande abismo entre expectativa e realidade, que está diretamente ligado às diferenças sociais e às exigências do mundo atual, fazendo com que o jovem viva em constante esperança e incerteza quando se fala em trabalho.
De outro lado, é preciso levar em consideração as constantes mudanças pelas quais o mundo passa, em uma era digital onde a informação é primordial e, no que diz respeito ao universo do trabalho, exige-se dos jovens, quase sempre, experiência prévia, competências socioemocionais e técnicas já desenvolvidas, esquecendo-se do fato de que o jovem ainda está construindo sua trajetória, entendendo com o que se identifica e desenvolvendo tais competências.
Juventudes e desigualdades
Na maioria das vezes, o trabalho deixa de ser uma esperança de realização pessoal e passa a ser uma necessidade de sobrevivência, causando, na maioria, uma frustração. Outras vezes, o trabalho chega de forma precoce e desprotegida, tendendo a interromper trajetórias escolares e limitar as possibilidades futuras, em vez de ampliá-las. Isso ocorre principalmente com as juventudes que enfrentam desigualdades estruturais.
Ao mesmo tempo, as juventudes demonstram diversas potencialidades, como criatividade, desejo de fazer parte da transformação social e capacidade de adaptação. Porém, não buscam somente a estabilidade financeira, algo superestimado por gerações anteriores, mas também qualidade de vida; olham mais para questões como saúde mental e para encontrar sentido naquilo que fazem, causando uma estranheza nas gerações anteriores.
Educação e políticas públicas
Tudo isso reforça a necessidade da valorização de políticas públicas que ampliem as oportunidades e promovam a educação para o trabalho nas juventudes, uma educação que promova aos sujeitos autonomia e desenvolvimento do pensamento crítico, para que entendam o seu papel na sociedade e construam seu próprio projeto de vida, ensinando, assim, não somente competências técnicas, mas também desenvolvendo competências socioemocionais, tornando os jovens protagonistas da sua trajetória pessoal e profissional.
Isso acaba quebrando certas “certezas” trazidas pelas gerações anteriores, entendendo que, assim como o mundo e as pessoas estão em constante transformação, a forma como o trabalho é visto e a relação das juventudes com ele também estão.
Falar da relação das juventudes com o trabalho é refletir também sobre o futuro da sociedade, para, assim, não somente garantir o acesso ao trabalho, mas também encontrar nele possibilidades de crescimento, participação social e realização humana.
Maria Antônia Rosa é pedagoga, especialista em Gestão Escolar com MBA em Educação Corporativa. Atualmente é coordenadora do programa Jovem Aprendiz no Instituto Assistencial Dom Bosco (IADB) em Guarapuava, PR.