Dom Bosco Hoje

Acompanhar para fazer crescer: a atualidade de Madre Mazzarello

Antes de fundar o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, junto com Dom Bosco, Maín já compreendia que educar era muito mais do que transmitir conhecimentos, pois o seu modo de viver revelava uma pedagogia feita de presença, escuta, trabalho compartilhado, oração e confiança.
Gilson de Oliveira Cardoso

Em um tempo marcado pela velocidade, pela hiperconectividade e, paradoxalmente, por tantas experiências de solidão, uma pergunta se torna cada vez mais urgente: como acompanhar as juventudes de hoje?

A resposta salesiana continua encontrando inspiração na vida de Santa Maria Domingas Mazzarello, cuja existência foi inteiramente dedicada à arte de caminhar ao lado das pessoas, principalmente das “suas meninas de Mornese”.

Antes de fundar o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, junto com Dom Bosco, Maín já compreendia que educar era muito mais do que transmitir conhecimentos, pois o seu modo de viver revelava uma pedagogia feita de presença, escuta, trabalho compartilhado, oração e confiança. Ela conhecia cada menina pelo nome, interessava-se por sua história, respeitava seus tempos e acreditava que cada uma possuía um potencial único a ser cultivado.

Para Mazzarello, a educação nascia do encontro com as pessoas e essa percepção se tornou ainda mais evidente na missão educativa que desenvolveu em Mornese: o ambiente criado por ela era marcado pelo espírito de família, onde cada jovem encontrava espaço para crescer humana, espiritual e afetivamente. A proximidade cotidiana permitia orientar sem controlar, corrigir sem humilhar e incentivar sem impor. Além disso, seu testemunho mostrava que a verdadeira autoridade nasce do amor vivido com coerência.

iStock / pcess609
iStock / Viktor Cap 2014
iStock / Viktor Cap 2014

Carta às primeiras missionárias
Uma das expressões mais belas dessa espiritualidade do acompanhamento aparece na carta enviada em 1880 às primeiras missionárias que haviam partido para a América do Sul. Mesmo distante geograficamente, Madre Mazzarello permanece extraordinariamente próxima ao escrever chamando cada irmã pelo nome, perguntando pela saúde, manifestando saudades, acompanhando as dificuldades da missão e oferecendo palavras de esperança.

Outro aspecto que atravessa toda a carta é a alegria. Madre Mazzarello pergunta repetidamente se as irmãs continuam alegres. Não se trata de um sentimento passageiro nem de um convite ao otimismo ingênuo. Para ela, a alegria era sinal de uma vida profundamente enraizada em Deus. É a alegria de quem confia na Providência, encontra sentido no serviço e transforma até mesmo os desafios em ocasião de crescimento. Por isso, cuidar da alegria das pessoas também faz parte do acompanhamento salesiano. Em cada linha daquela carta percebia-se uma mulher que conhecia profundamente aquelas a quem escrevia e que continuava exercendo sua maternidade espiritual mesmo à distância.

Muito mais do que transmitir recomendações práticas, Maín revela um modo de cuidar das pessoas. Sua preocupação principal não foi com a eficiência da missão, mas com a qualidade das relações. Ela insistia para que as irmãs permanecessem sempre unidas, vivessem a caridade recíproca, cultivassem a simplicidade e não deixassem que as dificuldades enfraquecessem a comunhão, pois sabia que a missão floresce quando a fraternidade é vivida no cotidiano.

A atualidade de Mazzarello
Essa forma de acompanhar permanece surpreendentemente atual. Em uma cultura que valoriza respostas rápidas, Madre Mazzarello recorda a importância de dedicar tempo às pessoas. Em uma sociedade onde muitos se sentem invisíveis, ela ensina o valor de chamar cada um pelo nome. Em um contexto de relações cada vez mais superficiais, mostra que a proximidade, a escuta e a confiança continuam sendo caminhos privilegiados para educar.

O Papa Francisco frequentemente recordou que a Igreja precisa desenvolver a cultura do encontro. Muito antes dessa expressão ganhar força, Mazzarello já a vivia concretamente através da presença discreta, serena e profundamente materna, que fazia com que cada jovem experimentasse algo essencial: sentir-se acolhida, valorizada e capaz de construir um projeto de vida iluminado pelo Evangelho.

Esse talvez seja o maior legado de Maín para a Família Salesiana e para cada um e cada uma de seus educadores. O acompanhamento não é uma estratégia pedagógica nem uma técnica de aconselhamento. É uma vocação que nasce do desejo de caminhar com a outra pessoa, ajudando-a a reconhecer a ação de Deus em sua própria história.

Num mundo que oferece inúmeras conexões, mas nem sempre verdadeiros encontros, Madre Mazzarello continua lembrando que a educação começa quando alguém se faz presença e que acompanhar é permanecer ao lado, inspirar confiança, despertar esperança e acreditar que, com paciência e amor, cada jovem pode florescer. Essa é a pedagogia que atravessa gerações e continua fazendo da espiritualidade salesiana uma escola de humanidade e de Evangelho.

Baixe esta matéria em PDF

Reveja
Missões

A seguir
Publicidade

© 2026 Copyright - Boletim Salesiano Brasil