Ação Social

O protagonismo que transforma realidades

A jornada da jovem ex-aluna salesiana que levou a voz do Pantanal ao mundo.
Janaina Lima, assessora de Comunicação da Rede Salesiana Brasil

Com uma trajetória moldada pela educação salesiana, pela Iniciação Científica e pelo engajamento socioambiental, a jovem Eloize Inês Cáceres Duarte destaca a urgência do envolvimento dos jovens nos espaços de decisão e na construção de políticas públicas.

Durante muito tempo, a palavra "política" foi associada exclusivamente a cenários partidários, disputas eleitorais ou a espaços burocráticos restritos aos adultos. No entanto, o conceito de ação política é infinitamente mais amplo, vivo e urgente: ele se traduz na garantia de direitos fundamentais, no acesso à educação de qualidade, na busca pela justiça social, na preservação ambiental e na construção de comunidades mais humanas e fraternas. Quando a juventude compreende que sua presença nesses cenários não é apenas um direito, mas uma necessidade social, o protagonismo jovem se converte em uma das forças mais potentes de transformação do mundo contemporâneo.

Essa visão de mundo e de cidadania não surge ao acaso; ela é fruto de processos educativos integrais que acolhem, incentivam e oferecem oportunidades reais para o desenvolvimento dos potenciais da juventude. Um exemplo emblemático dessa construção é a história de Eloize Inês Cáceres Duarte, jovem natural de Corumbá, MS, cuja trajetória une a ciência, a comunicação, o carisma salesiano e a representatividade em grandes arenas do debate político e climático.

A semente da ciência e o acolhimento salesiano
A caminhada de Eloize no ambiente da representatividade e do engajamento juvenil começou precocemente. Em 2019, aos 13 anos e em meio aos desafios impostos pela pandemia da Covid-19, ela foi uma das selecionadas para integrar o projeto Astrominas, uma iniciativa da Universidade de São Paulo (USP) voltada para apresentar jovens meninas a pesquisadoras do Brasil inteiro, enfatizando a importância da presença feminina no campo científico. Aquele primeiro contato digital foi a centelha que despertou o interesse da estudante pela linha de pesquisa e pela investigação acadêmica.

Aos 14 anos, Eloize ingressou na Escola Estadual Dom Bosco, em Corumbá, onde teve seu primeiro contato com o Sistema Preventivo e com os valores da espiritualidade de São João Bosco e Santa Maria Domingas Mazzarello. Paralelamente aos estudos regulares, a estudante passou a frequentar a obra social salesiana Cidade Dom Bosco, em Corumbá, MS, participando das atividades do Programa Crianças e Adolescentes Felizes (PCAF). Na instituição, Eloize participou de diversas oficinas como a de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e, posteriormente, integrou o Projeto Jovem Aprendiz.

O ambiente de acolhimento e a pedagogia da presença marcaram profundamente sua formação pessoal e cidadã. A vivência no espaço salesiano permitiu que a jovem fortalecesse sua identidade e compreendesse o valor da solidariedade e do serviço ao próximo. Esse envolvimento natural fez com que, entre os 15 e os 17 anos, durante o Ensino Médio, Eloize ganhasse destaque em seu município, sendo agraciada com o Prêmio Jovem do Festival América do Sul (FESP). Após participar de um encontro de formação salesiana na Lagoa da Cruz, foi indicada para atuar como referente jovem da Articulação da Juventude Salesiana (AJS) na região de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

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“A gente precisa ter representantes e estar representando as nossas lutas.”

Comunicação, ciência e consciência política
A percepção sobre a necessidade de atuar diretamente no cenário político e social intensificou-se a partir de 2022. Naquele ano, Eloize assumiu o papel de comunicadora social na Central Única das Favelas (CUFA) em Corumbá. O contato diário com as comunidades vulneráveis e a escuta atenta dos problemas locais permitiram à jovem compreender a fundo as carências vivenciadas pela população e a falta de políticas públicas voltadas para as juventudes.

“Estar em contato com outros jovens e compreender o impacto de ser uma porta-voz sempre foi algo genuíno para mim. No entanto, analisar as demandas da nossa realidade e entender as lacunas do Estado em relação à juventude foi o que gradativamente despertou meu interesse pela atuação política e social”, destaca Eloize.

Também em 2022, no segundo ano do Ensino Médio, a jovem foi selecionada para compor um grupo de pesquisa na Escola Estadual Dom Bosco através do Programa de Iniciação Científica Júnior (PICTECjr), promovido pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (FUNDECT) em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Desenvolvendo trabalhos no Laboratório de Microbiologia da universidade local onde atua como pesquisadora até hoje, Eloize consolidou sua paixão pela investigação científica nas áreas de Biotecnologia e Ciências Agrárias.

O avanço na pesquisa acadêmica caminhou lado a lado com a representatividade institucional. Em 2023, a estudante foi escolhida para representar o município de Corumbá na 33ª Conferência dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, promovida pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA). A vivência em um espaço deliberativo de controle social transformou definitivamente sua visão sobre o significado da política.

“[A participação na conferência do CMDCA] me conectou ainda mais com esse cenário político do qual antes, por outras falas, eu me afastava, mas, ao entender que tudo que realizamos na sociedade é político, comecei a difundir junto aos jovens do meu entorno a importância de estarmos sempre presentes”, pontua a jovem.

No final de 2023, ao concluir o Ensino Médio, Eloize viveu um momento marcante: acompanhada de seu grupo de pesquisa da Escola Dom Bosco, apresentou o trabalho científico desenvolvido no laboratório durante a Feira de Tecnologias, Engenharias e Ciências de Mato Grosso do Sul (FETEC), a maior feira de ciências do estado. A participação no evento proporcionou um intenso intercâmbio de conhecimento com pesquisadores renomados e com outros jovens líderes, resultando em premiações e em um amplo reconhecimento da imprensa regional.

A voz do bioma Pantanal nas arenas internacionais
O ano de 2024 marcou o início da jornada universitária de Eloize. Aprovada em 1º lugar para o curso de Biologia na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ela optou por permanecer em Corumbá para dar continuidade às pesquisas no Laboratório de Microbiologia e manter seu vínculo ativo com a Rede Salesiana. Durante o primeiro ano da graduação, foi homenageada pela FETEC como um dos rostos símbolos da feira, recebeu homenagens da UFMS no Dia Internacional da Mulher e passou a atuar na articulação de novos projetos voltados para a juventude acadêmica e comunitária.

A dedicação e a articulação constante renderam frutos ainda maiores. Em agosto de 2024, Eloize participou do processo seletivo das Plenárias das Juventudes dos Biomas, promovido pela Secretaria Nacional da Juventude (SNJ). Disputando com mais de 150 jovens de todo o estado de Mato Grosso do Sul, ela foi a primeira selecionada para representar a juventude do Bioma Pantanal nos debates que antecederam e culminaram na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, PA.

A preparação para esse desafio incluiu imersões em Brasília, DF, onde Eloize e outros 11 jovens representantes dos seis biomas brasileiros (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal) se reuniram com ministros e lideranças governamentais para alinhar as pautas ambientais, sociais e climáticas a serem defendidas internacionalmente.

“Ali não aprendia apenas sobre o olhar jovem, mas entendia o tamanho do movimento que acontece quando jovens se unem para representar suas casas, seus estados, suas histórias, suas vidas e o seu povo”, reflete a pesquisadora.

Sua participação na COP30 em Belém foi um marco histórico de representatividade. Eloize participou ativamente como painelista na mesa final sobre o Cenário da Juventude Climática, concedeu dezenas de entrevistas para veículos de imprensa nacionais e internacionais e teve sua atuação registrada em livros e revistas especializadas na área ambiental.

O presente que transforma o futuro
A visibilidade conquistada nos grandes fóruns globais fortaleceu a atuação de Eloize no cenário estadual e nacional. Em 2026, com o título de Representatividade Jovem do Pantanal, chancelado pela Secretaria Nacional da Juventude (SNJ), ela atuou como palestrante no evento internacional Femina Vox e abriu a Simulação da COP15 POP institucional da UFMS com uma palestra sobre “A Juventude do Presente”, onde contou um pouco sobre os seus passos antes, durante e depois da COP30.

A trajetória de Eloize é um testemunho concreto do impacto que a educação integral da ação social salesiana provoca na vida dos jovens brasileiros. Sua história reafirma que a juventude não deve ser enxergada apenas como o "futuro da nação", mas sim como agente ativo do presente, capacitada para debater, propor e transformar a realidade social e política.

“Quando a gente entra nessa temática do que eu poderia falar para os jovens e cativar a estarem integrados nesses movimentos, nessas articulações, eu acho que é basicamente isso: a gente precisa ter representantes e estar representando as nossas lutas, as nossas histórias e, acima de tudo, a nossa vida. Eu gosto muito da frase do Emicida, que é 'nós somos os únicos representantes do nosso sonho na face da Terra', e eu acho que quando a gente fala da juventude, esse princípio é muito importante", conclui Eloize.

E é nesse contexto que a ação social salesiana renova seu compromisso com a formação integral das novas gerações, incentivando a cidadania consciente, a pesquisa científica e o serviço ao próximo, para que mais jovens encontrem espaço, voz e coragem para fazer a diferença no mundo.

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