A missão salesiana nasce a partir da história de vida de Dom Bosco, tão genuína que o fez desenvolver um olhar sensível, uma escuta atenta e um coração aberto e acolhedor às crianças e jovens, sobretudo aqueles mais pobres e abandonados. Em um contexto marcado por profundas transformações culturais, olhar e escutar com atenção tornam-se gestos indispensáveis para um acompanhamento integral que seja significativo às diferentes realidades juvenis. Para compreender e caminhar com as juventudes de hoje, é indispensável desenvolver uma proximidade efetiva e afetiva com as juventudes, capaz de reconhecer a pluralidade, as tensões e as potencialidades que caracterizam as culturas juvenis contemporâneas.
O documento “Imaginários e características das culturas juvenis na América Latina e no Caribe”, do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM), destaca que a Igreja é chamada a “sair ao encontro das juventudes, não desde a doutrina, mas por meio de um diálogo profundo que valorize suas vivências e contextos”.
Olhar com realismo e esperança
Essa orientação converge diretamente com o coração do Sistema Preventivo: uma presença que vê, compreende e acompanha. O olhar salesiano precisa libertar-se de estigmas e rótulos. Os adultos, muitas vezes, constroem imagens negativas das juventudes, rotulando-as como rebeldes ou desinteressadas. Porém, essas rotulações podem ser também respostas diante de realidades marcadas por desigualdades estruturais, precarização do trabalho, dificuldades de acesso à educação e violência social, transformando tais estigmas em identidades de resistência.
Para acompanhar integralmente, entre outras coisas, é preciso um olhar sensível e disposto a reconhecer a complexidade da vida juvenil, suas vulnerabilidades marcadas por desigualdade, precarização e exclusão, e, também sua força criadora, que renova culturas e práticas sociais. Olhar para as juventudes com realismo e esperança é, portanto, um ato pastoral e pedagógico.
Ouvir com o coração
Da mesma forma, a escuta salesiana deve ser mais que um gesto cordial: deve ser uma postura espiritual e de fé, de quem está disposto a “ouvir com o coração”, inclusive aquilo que não está sendo dito com palavras. E, após a escuta, devem-se evitar respostas prontas e paternalistas, insistindo que as juventudes precisam ser escutadas como sujeitos ativos e portadores de uma verdade necessária à Igreja e ao mundo. Trata-se de acolher as buscas, as crises, as críticas e as esperanças que habitam o universo juvenil, incluindo temas que, para parte da Igreja, ainda são desafiadores, como diversidade, participação e novas formas de crença.
Escutar atentamente implica abrir espaços de fala, partilhar decisões e reconhecer que as juventudes, em muitos aspectos, podem estar “à frente”, oferecendo leituras proféticas de nosso tempo. Trata-se de uma escuta que transforma também quem acompanha e que gera corresponsabilidade.
Essa escuta também abre caminho para o diálogo intergeracional, apontado como essencial para superar rupturas e construir um futuro comum. O Papa Francisco afirma que os jovens são “pioneiros do encontro e do diálogo” e que os adultos devem assumir uma presença que não acusa, mas escuta. Convida, ainda, jovens e adultos a conversarem, compartilhando memória e futuro.
Diálogo e convivência
No horizonte salesiano, esse diálogo se faz na convivência diária, na confiança mútua e na construção paciente de vínculos educativos e afetivos. Assim, o acompanhamento integral salesiano exige um olhar que reconhece e uma escuta que acolhe. Olhar para compreender, e não para controlar. Escutar para aprender, e não apenas para responder. Como recorda a Encíclica Christus Vivit, os jovens são “presente e não apenas futuro”, portadores de uma energia renovadora capaz de despertar a Igreja e a sociedade. Para a missão salesiana, que sempre buscou “estar no meio dos jovens”, essa afirmação significa renovar a sensibilidade pastoral e educativa, assumindo a cultura juvenil como lugar teológico e espaço onde Deus continua a falar.
A casa salesiana, constituída por pessoas que veem e escutam com o coração de Dom Bosco, torna-se, então, espaço de cuidado e esperança, onde as juventudes encontram um ambiente seguro para desenvolver seus talentos e discernir seu caminho. A presença salesiana que vê e escuta permite que as juventudes, especialmente as mais pobres e abandonadas, ou as mais vulneráveis, encontrem adultos que não apenas as orientem, mas que caminhem junto, reconhecendo-as como protagonistas da própria história e da construção de um mundo novo.