Queridos jovens, que tal uma conversa sobre perfeição? É que hoje a sociedade, de modo geral, fala disso e nos cobra atitudes perfeitas a todo tempo. Para muitos, devemos ser perfeitos no agir, no falar, no fazer, no estar...
Somos convencidos a fazer tudo cada vez mais com pressa e com perfeição, como se fôssemos máquinas. Acontece que até as máquinas, por vezes, se equivocam. Quem nunca teve problema com uma impressora, por exemplo? Está conectada, com tinta, com wi-fi ou cabo, mas não faz a impressão do documento que mandamos ou às vezes imprime uma quantidade enorme de “páginas de teste de impressão”. Quem nunca utilizou um equipamento eletrônico que trava bem no momento em que mais precisamos?
Ou seja, se as máquinas também se equivocam e não são perfeitas, quem dirá nós, seres humanos, frágeis e vulneráveis. Justo nós, que somos afetados a todo o momento pelas nossas dimensões emocionais, psicológicas, sociais, religiosas, econômicas e muitas outras. O que quero dizer com isso é que somos seres vulneráveis do imprevisível, fatores externos e internos acontecem a todo tempo e mudam o nosso planejamento, o nosso humor, a nossa vontade. Com isso, podemos nos afastar do planejado ou até mesmo nos equivocarmos em certas ocasiões.
Amor incondicional
Esses equívocos que podemos cometer ao longo da vida podem nos causar insegurança, medo, sentimento de impotência, de insuficiência e de inferioridade, justamente porque fomos treinados a ter que responder a todos os estímulos com perfeição, pois a sociedade nos impõe cotidiana e insistentemente esta prática. E sabe o que é pior? Achamos que Deus nos impõe este mesmo modelo de relação. Pensamos que Deus nos escolheu ou só irá manter o seu amor para conosco à medida que vamos demonstrando perfeição em nossa caminhada.
Mas não é assim. Deus não escolhe os perfeitos. Deus escolhe pessoas humanas e sabe das nossas fragilidades. Não nos ama ou deixa de amar a partir do momento que atingimos ou não a perfeição. Pelo contrário, nos ama, simplesmente, porque escolheu nos amar. E faz isso de modo totalmente livre. Sabemos que seu amor por cada um e cada uma de nós é incondicional. Significa que, para recebermos o Seu amor, não há condição: é gratuito, livre, profundo e espontâneo.
Não somos amados por Deus porque somos perfeitos, mas porque somos humanos e ele quis nos amar. Deus sabe quem somos de maneira completa, sem rodeios, sem enganação, sem disfarce. Sabe que. só por merecimento, não iríamos muito longe e, exatamente por isso, somos destinatários do dom do Seu amor.
O exemplo dos apóstolos
O Papa Bento XVI, durante o ano de 2006, iniciou uma série de catequeses acerca dos apóstolos. Em suas reflexões, o Papa falava, dentre outros elementos, sobre o caráter de alguns dos apóstolos, que eram humanos e carregavam suas fragilidades. Sobre Pedro, ele dizia: “Simão aparece nos Evangelhos com um carácter decidido e impulsivo; ele está disposto a fazer valer as próprias razões também com a força (pense-se no uso da espada no Horto das Oliveiras: cf. Jo 18, 10s)”.
Sobre Mateus, o Papa ressaltava: “Jesus acolhe no grupo dos seus íntimos um homem que, segundo as concepções em vigor na Israel daquele tempo, era considerado um pecador público. [...] não só administrava dinheiro considerado impuro [...], mas colaborava também [...] de modo arbitrário”.
Percebemos, assim, que mesmo no grupo dos doze a perfeição não existia. E o Papa diz para cada um de nós, hoje, uma verdade muito bonita: “Jesus não exclui ninguém da própria amizade”, isto é, nem mesmo os que se julgam imperfeitos ou não merecedores no seu seguimento.
Melhorar a cada dia e a cada oportunidade
Somos frágeis, vulneráveis, muitas vezes injustos, necessitados de sabedoria e de ciência. Por vezes, temos atitudes que não queremos ou que não havíamos planejado. Vivemos situações que fogem do nosso controle e às quais, por isso, não respondemos como deveria ser, fazendo com que nos sintamos imperfeitos. Por vezes, por algumas dessas atitudes imperfeitas, que denominamos de “pecado”, nos afastamos de Deus e do seu amor. Mas podemos ter sempre uma certeza: Deus nos ama, mesmo com nossas imperfeições. Ele não nos exclui, de forma alguma, de sua amizade.
Não podemos deixar de buscar a nossa transformação, isso é verdade. Sabemos que precisamos melhorar em muitos aspectos, a cada dia e a cada oportunidade. Não podemos perder a consciência de que isso ou aquilo precisa mudar em nós, para que sejamos pessoas melhores, mais integradas, mais responsáveis, mais acolhedoras. Contudo, igualmente, devemos formar a nossa consciência para entendermos que para alcançar a “perfeição” humana, é mais difícil, talvez impossível. Por isso o velho e famoso ditado tão difundido entre nós: “Perfeito, somente Deus”.
A partir do que conversamos até aqui, nos cobremos menos perfeição. Busquemos mais leveza em nossa vida. Procuremos enxergar a beleza de quem somos. Descubramos e evidenciemos sempre os nossos potenciais, os nossos dons, as nossas capacidades. É preciso nos reconhecer humanos e, por isso, destinatários do amor de Deus.