Uma comitiva de profissionais europeus da Don Bosco Medien esteve no Brasil, entre os dias 2 e 10 de fevereiro, para aprofundar a pesquisa sobre o padre Rodolfo Lunkenbein e o indígena Simão Bororo, assassinados em Meruri em 1976.
O grupo, liderado pelo padre Johannes Kaufmann, SDB, visitou a Inspetoria Salesiana de Campo Grande e missões indígenas no Mato Grosso com o objetivo de produzir um longa-metragem de ficção, documentários e podcasts que resgatem a memória do martírio e deem visibilidade global à história.
A reconstrução histórica utilizará relatos de testemunhas oculares para encenar os acontecimentos de 1976 com precisão, sem evitar temas difíceis e buscando trazer perspectivas indígenas inéditas. Devido à busca por recursos e à elaboração do roteiro, que levará dois anos, a previsão de lançamento está entre 2030 e 2031.
Testemunhos em Meruri
Durante o tempo que passou na aldeia de Meruri, o diretor da Don Bosco Medien, Ferdinand Auhser, colheu depoimentos que trouxeram perspectivas inéditas para o roteiro.
O contato direto com os indígenas permitiu à equipe ouvir relatos de uma testemunha ocular do crime, um amigo pessoal de Simão Bororo que presenciou os acontecimentos. Ferdinand ressaltou a precisão do depoimento: “Ele descreveu com muita precisão como os fatos ocorreram… com base nesse relato, é muito bonito reconstruir e encenar o que aconteceu naquele dia”.
O mesmo relato trouxe à tona a dificuldade enfrentada pelos indígenas no sistema de internatos salesianos do passado. O amigo de Simão descreveu como a língua e a cultura Boe-Bororo acabavam sendo reprimidas pela educação formal da época. Ferdinand enfatizou que a produção pretende abordar esses temas complexos no filme para trazer “novas perspectivas” sobre a história, sem evitar os aspectos difíceis do passado.
Preservação ambiental e demarcação territorial
O legado deixado pelo padre Rodolfo e por Simão Bororo está relacionado à conquista e demarcação das terras para o povo Boe-Bororo. A luta para que as áreas indígenas fossem reconhecidas garantiu a proteção desses espaços contra a exploração externa, gerando um efeito de sustentabilidade para a região.
O ex-conselheiro geral para a Comunicação Social, padre Gildásio Mendes, afirma que o trabalho realizado pelos dois Servos de Deus deve ser lido sob uma ótica ecológica, pois a permanência dos indígenas em suas terras tradicionais é fundamental para a manutenção do equilíbrio ambiental.
Os cineastas pretendem destacar esse aspecto no filme para mostrar que a causa de Rodolfo e Simão era também uma defesa ativa do meio ambiente, o que ressoa com as preocupações ecológicas atuais.
A produção buscará financiamento governamental na Alemanha e na Áustria. A equipe planeja estabelecer uma coprodução internacional que inclua o Brasil e a Itália, fortalecendo o caráter global da história.
Para Mirjam Unger, a amizade entre Rodolfo e Simão simboliza uma “ponte entre as culturas”. A diretora ressalta a importância de revisitar o caso, lembrando que “os assassinos nunca foram julgados” e que é necessário olhar com cuidado para o que aconteceu. O objetivo da produção é dar a mesma importância a ambos, destacando o papel fundamental do povo Boe-Bororo na história e na luta por seus direitos.