O contexto em que vivemos é algo novo: os jovens de hoje passaram por diversas transformações políticas, culturais e, sobretudo, tecnológicas ao longo de sua vida. O grande avanço da internet e suas potencialidades trouxe uma juventude que tem o mundo na tela do celular — embora, por vezes, sem uma reflexão crítica sobre esse compromisso. Além disso, o mercado de trabalho mostra-se cada vez mais competitivo, inovador e dinâmico. Após a pandemia da Covid-19 — e talvez ainda antes dela — muitas profissões se reinventaram no cenário mundial; outras surgiram com mais força e, não podemos negar, a desigualdade social tornou-se ainda mais evidente.
Em meio a esse cenário, a fé — longe de ser uma dimensão puramente institucionalizada ou restrita a rituais — revela-se como um elemento fundamental na construção da identidade e do projeto de vida dos jovens. Recordo as palavras do apóstolo Tiago, que afirma: “A fé sem obras é morta” (Tg 2,26). As juventudes de hoje, baseadas no cotidiano e no movimento, vivenciam intensamente essa afirmação: é preciso que sua crença faça sentido na prática. Não basta um “crer por crer”; é necessário que fique claro em quais dimensões a fé se manifesta no dia a dia. Não se trata de explicar Deus, mas de perceber, de forma concreta, o sentido prático que essa fé traz à vida.
Esperança e espiritualidade
Para 2025, o Papa Francisco instituiu como temática do Ano Jubilar a esperança. Em sua Exortação Apostólica Christus Vivit, ele afirma: “Um jovem não pode estar desanimado; é próprio dele sonhar coisas grandes, buscar horizontes amplos, ousar mais, ter vontade de conquistar o mundo, ser capaz de aceitar propostas desafiadoras e desejar contribuir com o melhor de si mesmo para construir algo superior. Por isso, insisto com os jovens para não deixar que lhes roubem a esperança” (CV, p. 6). Recordo aqui duas das três virtudes teologais: a fé e a esperança estão intimamente relacionadas.
Muitos jovens talvez reflitam sobre a ausência de crença em um ser superior. No entanto, não se pode afirmar a ausência da fé, pois, sendo esta uma crença em algo, é possível vislumbrar que o jovem tenha fé em seu futuro, em seus sonhos, em seu projeto de vida. A crença em um ser superior pode surgir na infância, por meio da educação familiar ou de testemunhos de vida, assim como pode amadurecer ao longo da vida adulta. É necessário, porém, que essa busca faça sentido.
Nesse contexto, Leonardo Boff , no livro Espiritualidade: um caminho de transformação, amplia o conceito de espiritualidade como uma dimensão de conexão consigo mesmo, com o outro, com a natureza e com o mistério. Essa espiritualidade do cotidiano permite aos jovens integrar fé e vida, não como instâncias separadas, mas como partes de uma mesma jornada de crescimento e compromisso. Nessa fase, a fé tende a tornar-se mais crítica, reflexiva e pessoal, dando um novo significado ao sagrado.
Falando em sentido, Viktor Frankl, na obra Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração, utiliza o termo “logoterapia” para explicar que a principal motivação do ser humano é a vontade de encontrar um sentido para sua existência. Segundo ele, “a busca do indivíduo por um sentido é a motivação primária em sua vida, e não uma racionalização secundária de impulsos instintivos. Esse sentido é exclusivo e específico, uma vez que precisa e pode ser cumprido somente por aquela pessoa”.
É possível compreender o sagrado no cotidiano?
Para concluir este texto, retomamos a pergunta do primeiro parágrafo transformando-a em afirmativa: é possível, sim, compreender o sagrado no cotidiano.
A palavra “sagrado” pode ter duas grandes motivações: como substantivo, cuja etimologia vem do latim e significa veneração ou respeito religioso; e como adjetivo, qualificando algo associado a um substantivo — a família, por exemplo, pode ser sagrada para alguém. Ficaremos com a primeira definição: o sagrado na vida das juventudes nos lembra que a vida vai além do que é visível e imediato. Ele se manifesta em gestos simples, em uma palavra amiga, no cuidado com a casa comum, em uma mensagem inesperada.
Reconhecer o sagrado nas pequenas dádivas do cotidiano fortalece nossos vínculos de amizade, amor e esperança em uma sociedade mais justa, igualitária e humana. Não teremos jovens melhores por viverem a espiritualidade A ou B, mas por expressarem no cotidiano aquilo que há de mais belo dentro de si: a busca por sentido por meio do Sagrado que guia, orienta e conduz.
Éderson Perera Coitinho é licenciado em Letras (Português e Literaturas de Língua Portuguesa) pela UNIPAMPA e especialista em Docência no Ensino Religioso pela UERGS. Atualmente, é membro da Equipe de Pastoral Juvenil Salesiana da Inspetoria Salesiana São Pio X.