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Preservar vozes e rostos humanos: um apelo do Papa Leão XIV

Segundo o Papa, um dos grandes riscos que corremos é delegarmos para os sistemas algorítmicos nossa capacidade criativa e imaginativa, abrindo mão, assim, dos dons que Deus nos dá.
Ir. Marcia Koffermann, FMA / Foto: iStock - Nutthaseth Vanchaichana

No dia 24 de janeiro, dia de São Francisco de Sales, o Papa Leão XIV publicou a tradicional mensagem para o dia Mundial das Comunicações Sociais, que este ano tem como tema “Preservar vozes e rostos”.

Leão XIV aborda a problemática da Inteligência Artificial, que é um dos grandes dilemas da atualidade, porque tende a antropomorfizar (atribuir forma humana) a tecnologia, chegando ao ponto de criar vozes e rostos com alta precisão, de modo que é quase impossível identificar o que é conteúdo real e o que é falso.

Segundo o Papa, um dos grandes riscos que corremos é delegarmos para os sistemas algorítmicos nossa capacidade criativa e imaginativa, abrindo mão, assim, dos dons que Deus nos dá, para seguirmos o caminho mais fácil do conteúdo gerado pela Inteligência Artificial.

Modelos
Esses modelos de linguagem desenvolvidos são cada vez mais precisos, capazes de imitar os sentimentos humanos e simular relações, como se fossem pessoas reais. Esses algoritmos desprovidos de carne e de humanidade não questionam, não argumentam, mas se moldam às premissas do pensamento que caracteriza as chamadas “bolhas” a que cada pessoa se limita.

Conforme o Pontífice, isso nos rouba “a possibilidade de encontrar o outro, que é sempre diferente de nós e com o qual podemos e devemos aprender a confrontar-nos. Sem aceitar a alteridade, não pode haver nem relação nem amizade”. Corremos, assim, o risco de humanizar a tecnologia e desumanizar as relações.

A necessidade do diálogo
Além desta tendência a criarmos “realidades paralelas” na qual rostos e vozes são manipulados, acabamos nos tornando reféns da visão de mundo dos “criadores” destes sistemas de algoritmos que se concentram nas mãos de pouquíssimas pessoas e que perpetuam suas visões de mundo, preconceitos e modelos de pensamento.

A facilidade de acesso aos mecanismos de busca e produção de conteúdo tende a silenciar as vozes e os rostos reais, a nos afastar das fontes confiáveis e do pensamento divergente que garante a capacidade crítica e que é a base do diálogo e do conhecimento.

Para fazer frente a essa realidade, o Papa Leão XIV propõe três atitudes básicas: responsabilidade, cooperação e educação.

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“Corremos, assim, o risco de humanizar a tecnologia e desumanizar as relações.”

Responsabilidade
O Papa apela para a responsabilidade de todos os usuários para com a transparência, a honestidade e a ética, mas também para a responsabilidade dos criadores e desenvolvedores das plataformas, para que não sejam guiados unicamente pelo desejo de lucro.

O Papa também convoca os legisladores nacionais e supranacionais para que atuem com profundo respeito pela dignidade humana e criem mecanismos eficazes para conter os conteúdos falsos, manipuladores ou deturpados.

Cooperação
Diante dos desafios gerados pela Inteligência Artificial, o Papa propõe o caminho da cooperação de “todas as partes interessadas – desde a indústria tecnológica aos legisladores, das empresas de criação ao mundo acadêmico, dos artistas aos jornalistas e educadores – que devem estar envolvidas na construção e na efetivação de uma cidadania digital consciente e responsável”. É preciso que toda a sociedade se mobilize para que a IA seja um recurso importante e acessível, mas não uma fonte de manipulação e desconexão da realidade.

Educação
Por fim, talvez o elemento mais importante, para nós da Família Salesiana, é a educação. O Papa Leão XIV afirma que a educação permite “aumentar as nossas capacidades pessoais de refletir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que elas ativam, permite às nossas famílias, comunidades e associações a elaboração de critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável”.

Enquanto portadoras de um carisma voltado para a educação da juventude, as instituições salesianas precisam ser espaços nos quais se fomenta a alfabetização midiática e informacional em todos os níveis e com todos os públicos. É preciso que busquemos formas de promover uma educação crítica com as crianças, os adolescentes e os jovens, mas também precisamos formar os educadores, trabalhar com a formação sistemática das famílias, ampliando o leque de ação e assumindo a responsabilidade social que nos cabe.

Esse trabalho de alfabetização midiática e informacional é um dos elementos fundamentais e necessários para a formação do bom cristão e honesto cidadão dos dias atuais.

Precisamos formar cidadãos capazes de identificar um conteúdo falso e manipulador, de furar a bolha na qual os grupos se refugiam; capazes de recorrer a fontes confiáveis e de criticar os discursos de ódio que favorecem comportamentos prejudiciais e desumanizam as relações. Só assim seremos capazes de formar bons cristãos que vivem o amor e a acolhida, que promovem e cuidam da vida, e que veem no irmão o rosto e a voz de Deus cheio de bondade e misericórdia.

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